terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O PIROLITO, o Cachorro do ZÉ MARIA, o 47.

Conto dedicado a todos os Ex Combatentes da Guerra do Ultramar.

Olá. Vou apresentar-me:
Sou um cachorro, meio rafeiro, e o que se pode chamar, um cachorro "Sem Abrigo".
Sim, sou um cão "Sem Abrigo".
Eu e o meu dono, o ZE MARIA, o "47", somos ambos "Sem Abrigo". Dormimos num "vão de escada" e podem acreditar que somos felizes. (Eu vou dizer-vos um segredo: Percebo tudo, tudo, o que os humanos dizem).
Mas, como tudo aconteceu?--perguntam vocês.
Eu vou contar, embora abreviando a historia da minha vida.
Tive uns donos que me estimavam, que viviam numa vivenda super luxuosa, grande, e onde também havia 3 crianças que eram os meus companheiros de brincadeiras. Os seus pais, e meus donos, tinham nome fino: Condes Sá de Vilhena, Valdemor e Saragoça Stein. Só que, quando cresci mais, num certo dia puseram-me fora de casa.Tudo porque eu corria pela casa, saltava atrás das bolas e dos meus 3 amigos e porque fiz xixi numa das salas. É que eu não sabia que não podia fazer tudo aquilo...
Ralharam muito comigo e fui acorrentado no quintal com uma corrente curta, e pesada. Passaram a ralhar sempre comigo, por tudo e por nada o que me entristecia imenso.
Até que um dia colocaram-me no carro.
Pensei: Vamos todos passear.
Andámos vários Kms, muito tempo, até que pararam o automóvel no meio de uma estrada muito comprida, longe de tudo, só com um pinhal em redor. Abriram a porta do carro e atiraram-me para a estrada, fugindo com o carro a alta velocidade.
Fiquei espantado! Ainda pensei: "Seria uma brincadeira nova? "
Corri atrás do carro o mais que pude, até não poder mais de tão cansado, vendo os meus 3 amiguinhos a gritar por mim e a chorarem, com as carinhas deles encostadas ao vidro traseiro do automóvel. Mas o carro desapareceu lá no fim e nunca mais o vi.
Esperei por eles vários dias, no pinhal ao lado daquela estrada comprida, mas, cheio de fome, frio, sede e medo, tive que me pôr ao caminho, por carreiros, estradas, mais carreiros, aldeias, onde fui escorraçado, espancado e até atropelado.
Muito ferido nas patas traseiras, andei, como pude, dias e noites, arrastando-me, até que cheguei , muito fraco, esquelético e faminto, a uma grande cidade cheia de gente mas que também me afastavam deles.
No fim de um certo dia, dia de chuva forte, todo molhadinho e a tremer, encostei-me a um canto de uma casa velha à espera da morte, desejando que ela viesse buscar-me depressa.
Nada me prendia à vida. Viver, para quê??
Mas... ouvi assobiar. Alguém a chamar por mim, com uma voz rouca:
"É ! cãozito!! Não tenhas medo, não fujas. Que foi que te fizeram, meu amigo?"
Olhei. Era um senhor de idade, cabelos e barba brancas, com ar de abandonado, como eu.
Ele, novamente:
"Olha como tu estás!! Quem te fez isto?! Quem te tratou assim, tão mal, amiguinho ?! Vou tratar de ti, não tenhas medo."
Devagar, aproximou-se e pegou-me ternamente ao colo. Levou-me para o vão de umas escadas velhas, e embrulhou-me no seu sobretudo cinzento.
Só ali o fixei melhor. Nos olhos. E, naquele momento, nasceu logo uma forte amizade entre nós.
Tratou de mim varias semanas, curou-me e conseguiu que eu andasse de novo, sem arrastar as minhas patas traseiras.
Passámos a andar juntos. A dormir juntos. A percorrer juntos toda a cidade.
E... um dia deu-me um nome:
PIROLITO.
E PIROLITO fiquei, tendo eu esquecido o meu outro nome, Boby.
Este meu novo e grande amigo e dono era muito engraçado. Dizia-me ser ZÉ MARIA, o 47.
Às vezes cantava muito alto, cantigas que eu desconhecia: "Heróis do Mar, Nobre Povo Nação Valente e Imortal ", outras vezes cantava: "Soldado Que Vais Para a Guerra", outras era: "Angola é Nossa, Gritarei" , e muitas outras cantigas.
Por vezes, gritava: "Ataquem!! Eles estão ali no capim!! Atirem!!!! ". Já em outras noites, chora baixinho, encolhido na sua manta velha, naquele " vão de escadas" onde ambos dormimos.
O 47 fala muito de uma terra muito longe e que se chama Angola, e de um amor que lá teve e que lá ficou também. Fala também dos nomes de muitos camaradas da tropa que lá morreram em combate, e diz, amargurado, que ninguém quer saber deles nem de nenhum militar que veio de lá, mesmo os que vieram com vida. Nesses momentos, põe-se de repente em pé, muito direito, bate pala e assim fica largos minutos. E chora, chora quando fala nisto.
Muitas vezes o 47 é mal tratado na rua: Chamam-lhe malandro, mandam-no trabalhar, dizem que só prejudica uma tal Segurança Social e outras coisas feias. Alguns até lhe gritam:" Vai mas é ter com a tua Bernadete! "Ele, fica triste, de olhos no chão e sem falar.
Há dias cruzàmo-nos com um senhor de cara bondosa, sorriso de manso, todo vestido de preto. Mas, estranhei: ele tinha ao pescoço uma coleira branca que me fez lembrar a coleira que eu tinha na tal vivenda luxuosa.
Este senhor vestido de preto olhou para nós com desprezo, apressou o passo e fez que não ver a mão estendida do 47.Ouvi então a voz rouca do meu dono murmurar baixinho: "Padres, padres...são todos iguais".
Nessas alturas eu gostava de ter braços como as pessoas para o poder abraçar e poder beijar .Como não tenho, chego-me a ele , lambo-o nas barbas brancas e bebo-lhe as lágrimas que lhe caiem dos olhos.
Há até alguns que lhe roubam as poucas moedas que ele por vezes tem no bolso fundo do sobretudo velho acinzentado.
Há uma pessoa que o trata bem:
Aquela moça bonita, de voz doce, que lhe dá sorrisos, carinho e felicidade.Que lhe oferece um chocolate preto e faz-me festas, dá-me beijinhos e biscoitos saborosos. Aparece de vez em quando e vai embora sempre a chorar e a olhar para trás, para nós. Lá ao fundo, acena sempre e atira-nos beijos com a mão, delicadamente.
Quem será????
O 47 nunca me falou dela mas fica sempre triste quando ela desaparece lá ao fundo, na esquina.

Agora, oiço nas ruas , as pessoas dizerem que vem aí o Natal. Vejo-as passar com embrulhos bonitos, mas ninguém olha para mim nem para o 47.
Não faz mal. Eu olho para ele e ele olha para mim.
Somos felizes assim.
Mesmo que eu não tenha, como alguns cães que eu vejo, um fato quente vestido contra o frio.
Eu tenho o melhor fato do Mundo inteiro: O amor do ZE MARIA, o 47, e o seu sobretudo cinzento.
(Esta dele ser o 47 é que nunca percebi muito bem. Mas ainda um dia hei-de saber).

Bem, agora vou andar mais um bocado por aí, com o meu dono amigo, o ZE MARIA, o 47.
Temos todas as ruas da cidade por percorrer e temos que as ver todas, todas, antes de chegar a tal noite de Natal. Que, dizem que é de amor.
É ?
Não sei.Adeus.E...Bom e Feliz Natal !!!!!


Conto inédito de : AHV ESGAIO FAP551/67
Comissão em Angola: 69/71
Conto de minha autoria, dedicado a todos os Ex Combatentes da Guerra do Ultramar.
Conto a editar em livro, um dia.



terça-feira, 10 de junho de 2014

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE" VIII


AS TRÊS TORRES
Nota Introdutória

No princípio era o “Verbo”, e o verbo estava com as Torres de Controlo, e uma das Torres era a nossa Deusa “Majestosa” – símbolo máximo do A.B.4.


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Marrador – Neste texto vamos apresentar a família “Torres”. A avó, a mãe e a filha. Cada uma com a sua história peculiar fixada no tempo, como se de uma verdadeira família humana se tratasse. A velhinha, a bonitona e a bebé. A primeira, nasceu há longos anos!...
Vamos conversar com ela…,…
VITO – Minha menina, qual é a sua “graça”?
GUIDA – Neste futuro e já afamado A.B.4, deram-me o nome de Guida. Mas como ainda sou uma criancinha, tratam-me por Guidinha.
VITO – Em que ano nasceste, Guidinha?
GUIDA – Em Novembro de 1962 e fui instalada com base na minha mobilidade precoce.
VITO – “Andor”, minha pombinha bailarina!...Quem foi o teu papá?
GUIDA – Dizem as más-línguas que foi o Bem-Haja, um dos pioneiros do A.B.4.
Cansou-me tanto com as andanças pelas pistas que aprendi a correr logo que vim ao Mundo.
VITO – E o teu avô?
GUIDA – O Capitão Trovão a quem chamam de Horta.
VITO – Horta? Horta de couve ou, horta do Faial?
GUIDA – Isso não está sob o meu controlo. Só controlo passarinhos…
VITO – Passarinhos!... Que passarinho primeiro te saiu na rifa?
GUIDA – Olha! Um Pê Vê. Um daqueles que mais parecia um vira latas da 2ª. Guerra Mundial ou, da Coreia!... Tinha um “berlinde” na crosta para se guiar pelas estrelas. No ar, parecia um navio de guerra!...
VITO – Sentias DO dos passarinhos?
GUIDA – Essas DO´s a quem apelidavam de 27, só apareceram em 1963. Pareciam umas “coquetes” a esvoaçarem de Destacamento em Destacamento. Por essas bandas fora, não tinham as minhas manas para falarem. Borboletas!...
VITO – Com as borboletas não se lhes juntaram uns gafanhotos, também?GUIDA – Sim, em Abril desse ano chegaram letras e algarismos… Tiveram o cognome de T-6. Grandes máquinas de guerra!...
VITO – Assististe a tudo, ou seja, viste nascer o “Verbo”!...
GUIDA – O “Verbo”!... Eu era a Torre Móvel, eu era o Radar, eu era a Casa de Campo!...
VITO – Tipo capoeira andante!... Como “verbo”, o que vias em teu redor?
GUIDA – Via, via o pessoal a trabalhar na construção deste AB. Dormiam no edifício das “Infras” e comiam na casa do Vítor Sá. Eu, circulava, circulava e via tudo. Via barracas e tendas e via a minha filha a ser construída, mas o controlo era feito em cima de mim. E, eu, caminhava, caminhava e, por isso me apelidaram de Móvel
Marrador: No princípio era o “Verbo”, e o verbo nasceu assim!...Havia uma pista de laterite que servia a DTA e continha um estacionamento para viaturas junto da aerogare de alvenaria. Existia uma pista já aberta e em processo de asfaltagem que viria a ser a pista do A.B.4. O pessoal das infraestruturas esfolava-se a trabalhar e, os primeiros aviões a visitarem este aeródromo foram os PV-2, DO´s e T-6. Em 1963 deram-se os fogos reais já com o Com. Agrup 11. Foram os T-6 que nos treinos das guarnições ajudaram a definir rotas de aproximação. Tiraram-se no ar fotos das posições a bordo dum T-6 e, na altura dos ditos fogos, já havia a Torre fixa no A.B.4, próxima aos vizinhos dois T-6 e um PV-2 que participaram numa das sessões de fogos AA. Respeitante a esta Torre- (a filha da mãe) – deixem a conversa para o VITO.
VITO – Que linda “Majestosa” me saíste, pomposa Torre!... Tua mãe Guida foi a tua briosa.
E o teu pai, algum sanzaleiro?
MAJESTOSA – Meu pai, foi o capitão que vagueava pelo “Quimbo”!...
VITO – Nasceste ainda a tua mãezinha era uma criança, “matumbinha”!...Violação logo à nascença?!
Majestosas – Havia pressas!...Os combates estavam para ribombar. O reboliço impunha a “cobrição” da guerra!...
VITO – A Guidinha deixou o andarilho e, tu subiste até aos vinte e cinco metros. Comeste muita “fubinha”!...Majestosa estática, bela raça!...Atravessada de “Black & White”, és rija que nem uma pera. Aposto que durarás por décadas!...
MAJESTOSA – Aguentei guerras infinitas e ainda me mantenho de pé. Flexível, mas sólida e resistente ao tempo. Velhinha, e já visualizo a minha filhinha ao meu lado a dar os primeiros passos!...
VITO – Tens muitas histórias contidas nessa memória, adivinho.
MAJESTOSA – Tantas, tantas como reais e fictícias. Lendas e cruéis, bonitas e aventureiras. Mas…já as contei tantas vezes que os meus “residentes” estão fartos de as ouvirem!...


VITO – Aqueles que adormeciam no teu colo quando deveriam controlar o tráfego aéreo?! Os faroleiros do ar?!...
MAJESTOSA – Sim, esses bêbedos e sorvedores de “nocais” e “cucas”. Dorminhocos de maca e comedores de chouriça do “puto”. Por isso, é que tenho a minha sala de estar a cheirar a bafio!...
VITO – Conta, conta as tuas histórias para os velhotes recordarem como se fossem criancinhas inocentes.
MAJESTOSA – Tantas, tantas, que só te darei uns tópicos. Vitinho meu, lembras-te do teu primeiro cagaço? Tu que estás aqui armado aos cucos com as tuas perguntas…não te lembras do teu 1º. dia nesta tua Majestosa? À noitinha tiveste um pesadelo com os “turras” a assaltarem-te a gaiola. Cobardolas!... Recordas o roncar do tal avião fantasma que nos sobrevoou e abanou pela calada da noite? E os Ovnis que disseste que viste e, não viste ou, viste? Já zingavas por todos os cantos que até desceste pelo para raios num dia de trovoada. “Corrécio”, maltrapilho que até tremeste como varas verdes ao saberes que um Boeing iria aterrar no A.B.4. Meteste-te debaixo dos equipamentos a fingires que não tinhas fonia!... Só “caguefes”!...Só lias livros de “cowboyada” nas horas de ponta que nem viste o T-6 do Corredeira a sair da “auto-estrada” com uma poeirada, tipo Formula 1. Até a DO do Alex quis aterrar na tua careca fazendo escadinhas no ar. Malandreco dum raio!... Para te despedires da tua “catraia”, o teu substituto na Torre ia causando um choque aéreo. Olha, que sarilhos, meu fala-barato!... E nos dias de trovoada?! Acoitavas-te no seio das minhas entranhas cagadinho de medo, medricas!... Enfim, eu só servia de escritório para escreveres as tuas cartinhas para as meninas do “puto”, feito valentão!...


VITO – Gaita, não se pode falar contigo. Descartas tudo para cima dos “controlas”!...
MAJESTOSA – E, ainda não acabei…meu “magarefe”. Escapaste-te de levares umas porradas do capitão “gancho”. Desenroscavas as lâmpadas do tecto para dormires mais tranquilo, anh!...
VITO – Oh minha pombinha linda, estavam fundidas com o teu abanar constante. A tua carcaça só bailava ao sabor do vento!...
MAJESTOSA – Aldrabão. E os equipamentos? Baixavas-lhes o som para não te
incomodarem e, um dos mesmos ficava sintonizado no batuque dos merengues!... Eu bem ouvia o piloto Pinheiro todo aflito a chamar por ti lá para os lados de Gago Coutinho. Coitado, amedrontado com toneladas de nuvens a mijarem-lhe em cima e com um fogo-de-santelmo a lamberem-lhe as asas do “teco-teco”, e tu a ríres-te despregadamente.
VITO – “Atão”, chamei Luanda!...
MAJESTOSA – Chamaste Luanda ou, a Rosa? Seu capador de flautas!...Ligrinhas.
VITO – Hoje acordaste com dores na garganta. Estás a ficar rouca de tanta asneirada.
MAJESTOSA – Se não dormi foi porque te deu para apanhares borboletas às tantas da madrugada. Sempre com o holofote ligado para as cegares e, eu, às moscas!...Depois, como pisaste as formigas cadáveres trouxeste para o meu soalho aquele cheiro a podre. A tua rendição só comentava: “Porra, esta Torre anda podre”!...Pois, eu é que me tinha cagado, claro!...
VITO – Bem, havia pior do que eu, certamente!
MAJESTOSA – Havia, havia aquele que só se embebedou uma única vez, mas que durou dois anos. Era ele e o Cossa da Meteorologia. Descia pela varão do para raios feito bombeiro. Depois, pensando que tinha lá em baixo, encostado às minhas pernas o cavalo, montava na “kinga” e começava a relinchar seguindo para o Bar dos “sorjas”.
VITO – “Cum caraças”. És cá uma “cusca” maldosa! Vê lá se não transmites esse veneno todo à tua filha Deolinda. Pela tua barriga, estás prestes a desovar!...
MAJESTOSA – Teria muito para contar… Ainda me lembro de quando estavas a vazar as tuas águas lá do topo da minha garupa. O Comandante seguia no seu Volkswagen preto, e teve que ligar o limpa vidros, interrogando-se donde é que se situavam as nuvens num dia a descoberto. Faziam da Majestosa uma discoteca a céu aberto. Tudo vosso!...


Marrador – Meus caros leitores, não se excitem com a conversa desta venenosa pois, nem tudo foi verdade…Só as questões piores! Agora, passamos à terceira Torre – a filha da Majestosa, neta da Guida.
Vive junto à sua mãezinha na presente data.
VITO – Deolinda, minha pequenina. Nasceste há pouco tempo, mas já és tão
grande!...
LINDA – Quem és tu, meu “matumbo”?
VITO – Sou o “controla” dos brancos. Tua mãe não te falou de mim?
LINDA – Olha-me este “xacala”, o “samuto” do “puto”!...Ainda és vivo, pacaça?
VITO – Cangalho velho é a tua mãe e ainda não caiu!
LINDA – Pensas que ainda tens “gungungo”, sua próstata entupida? Já olhaste para a tua sombra?
VITO – Olha, olha, eu que pensava que a Majestosa ensinava a filha a ter boas maneiras!...Camafeu danada! Estás armada em senhora dos ares a controlares os gafanhotos “dos brazuca”?
LINDA – Já vi que ainda andas “malufado”. “Tweia kuno”. Sobe o elevador e saúda-me com um “Moyo weno”, à maneira quiouca.
VITO – Assim já gosto do teu falar, minha “tchenge”. Aprecio deveras as “tusulas” deste Condado. Ehhh pá, ehhhh pá!... Vestiste o teu “quitengue” domingueiro? “kukuata” a minha ofensa de há momentos!...
LINDA – Os “lungas” de outrora pertencem ao passado. A guerra terminou e, os tempos são outros, agora.
VITO – “Kusakwila”. Acabemos com os “kukongas” de mal dizer.
LINDA – Vês a minha “koi-koi” junto de mim? Aquela que te serviu de poleiro? Sempre reguila, mas boa mãe!
VITO – Ensinou-te as boas maneiras? Sofredora de tantas guerras!... E tu, jovem e encantadora Torre, como te tens dado nestes tempos de Paz?
LINDA – “Sepa liami”, os tempos são outros. Estamos no bom caminho. Já se construíram novas instalações neste velho aeródromo e, por aqui se transacionam as “kamanguitas”!... A par das novas modernices, caem as velhas e históricas construções.
VITO – Pois, o hangar já se avista sem telhas, a tua mãe já torta e cega. As Messes…ao Deus dará, e os morais do Clube dos Especialistas?
LINDA – “Zungo”, não digas nada. Vão servir como painéis nos corredores do novo aeroporto!...Relíquias do passado, pinturas de celebridades!...
VITO – Hummm!... “picada” asfaltada até à capital, “pó pós” à maneira. “Matumbos”… mais cultos!...
LINDA – Tudo vai rolando. Muitos “canhicas” falam do pai branco com certa nostalgia!... Escrevam umas cartitas e organizem uma excursão para verem a cidade de Saurimo, cada um por si. Eu, com a minha mãe “A Majestosa”, daremos as boas vindas aos “Especiais” do A.B.4. Faremos uma grande festa com “malufo”, “catchipembe”, “maconha” no “mutopa”. “Pwos” à fartazana, “gomas tchinguvos” a batucar, maningue de “tusulas” “nu cafena”, e “funge” para comer!...
Nos finais… a celebérrima “IACAMOKA” para reatar as pazes eternas entre os guerreiros de ambas as partes. Fiquem-se com os versos dum piloto que se inspirou lá para as serras de Montesinho!...



“MOYO UÉ, TWEIA KUNO”, com “GUNGUNGO”!...

VOZES AMIGAS

Ouço as vozes tão perto e tão distantes,
Que me chegam repletas de amizade,
A despertar em mim uma saudade
Cujo pungir eu não sentia antes.

Batem os corações mais anelantes,
Que aliviam minha alma em ansiedade,
E suavizam a dura soledade,
Em noites preguiçosas, fatigantes.

E pra além da distância no espaço 
Acompanha-me sempre o vosso abraço
Refeito de calor e simpatia.

Ó amigos que amo e compreendo!
Também eu, tantas vezes, vos relembro
Em horas de tristeza e alegria.
 
Língua Quioca
Matumbo – inculto                                                                                                                            
Fuba – farinha de mandioca
Xacala – grande chefe
Samuto – homem
Gungungo – com força, cheio de energia
Malufado – embriagado
Tweia kuno – vem cá, chega aqui
Moyo weno – saudação respeitosa
Tchenge – mulher bonita
Tusula – rapariga
Quitengue – pano colorido
Kukuata – desculpa
Lunga – homem
Kusakwila – obrigado
Kukonga – disparate, ditotes
Koi-koi – velha
Sepa liami – meu amigo
Kamanga – diamante
Zungo – cala-te
Canhica – criança
Catchipembe – aguardente
Maconha – liamba, tabaco
Mutopa – cachimbo de água
Pwo – mulher
Goma tchinguvo – tambor
Nu cafena – dançar
Funge – farinha cozida
Iakamoka – grito de guerra
Kinga - bicicleta
Recolha histórica:
Manuel Flórido Bem-Haja e Mário Arteiro
Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue
Versos:
Pil. Júlio Corredeira

Até Breve
O Amigo

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

LESTE DE ANGOLA - 28

“LESTE DE ANGOLA”
Memórias de um passado saudoso

EXPLORADORES PORTUGUESES NA LUNDA

“Em meados de Oitocentos, a zona central dos mapas do continente africano era um enorme espaço em branco. Cinquenta anos depois estava preenchida nos seus traços principais. E, breve, por força de uma súbita competição imperial, sobrepor-se-iam às linhas da geografia as fronteiras políticas das novas colónias europeias.”

     África, contínuo movimento de migração, combinação e recombinação de genes, de línguas, de princípios culturais e de organização social, de que foram resultando à luz de circunstâncias locais e regionais um-sem número de entidades políticas e fronteiras étnicas sempre efémeras e fluidas.
     Havia impérios governados por aristocratas e soberanos despóticos e que estendiam o seu domínio por enormes áreas. E era de encontro a esses grandes impérios que as expedições avançavam, porque era esse o seu objectivo comercial e diplomático ou porque muito simplesmente eles se encontravam e eram obstáculos aos seus caminhos projectados. Nas Lundas e região do Cuando Cubango e suas fronteiras, dominavam os impérios do Imbangala, Cassanje (Malanje) e a Mussumba, (Lunda Norte). A Norte da Mussumba havia o império Cazembe e, a Sul, depois do Zambeze, o império do Barotze. Nas Lundas falava-se Quioco, Bieno, entre outras línguas.

     Os exploradores que iremos acompanhar neste tema foram de encontro às capitais dos principais impérios centro-africanos do séc. XIX. 
     Em 1831, António Gamito, na tentativa de ligar o Índico ao Atlântico, alcançou o Cazembe. Por esta altura, Silva Porto, o europeu que porventura melhor conhecia os caminhos destas regiões de África, esteve várias vezes no Barotze e em várias zonas do império Lunda, cuja capital foi visitada por Rodrigues Graça em 1846, e por Henrique de Carvalho em 1886/7.
     O império Lunda tinha o seu fulcro na região do curso superior do rio Cassai, um
dos rios que a essas latitudes correm para norte em direcção ao Congo, numa zona fértil de savana húmida e florestas onde a caça é abundante.
  Rodrigues Graça vivia no Golungo Alto, (perto de Salazar/N´Dalatando), proximidades do império de Cassanje, cujo rei dificultava a passagem de desconhecidos pela sua área de comando. Este sertanejo tinha no Golungo Alto uma abastada propriedade e os seus negócios, e desejando acabar com a escravatura submetido às leis abolicionistas do marquês de Sá da Bandeira (1836) resolve organizar uma expedição ao mítico império do Muatiânvua situado para as bandas do Norte de Saurimo. O Muatiânvua era um antigo e distante fornecedor de escravos para o ocidente (Benguela, Luanda), pelo que urgia convencê-lo, bem como os demais potentados de além Cuango, a aprofundar alternativas de comércio – com destaque para o marfim e a cera, firmando uma aliança com a Rainha D. Maria II.

     Em 4 de Maio de 1846, o explorador Rodrigues Graça parte para a Lunda, mais propriamente, para o encontro com o Muatiânvua, rei da Mussumba.
     Para enriquecer politicamente a expedição auxiliou-se de D. Ana Joaquina dos Santos Silva, mulher mestiça de ascendência portuguesa que soubera vingar num mundo de homens, nomeadamente ao enviuvar de um rico comerciante português. A fama desta abastada proprietária impusera-se no sertão oitocentista e já era fornecedora do Muatiânvua através dos aliados bângalas de Cassanje.
      Não era pois à toa que a chamavam de Dembo, ou senhora dos matos.


    O destino apontado por este sertanejo seria a região das Mussumbas, entre os rios Luíza e Calânhi, embora previsse passar além do reino do Muatiânvua e dar corpo ao lendário desígnio de ligar Angola a Moçambique – ideia já tentada e preconizada por António Gamito em 1831 na sua partida por Moçambique.
    Traça o trajecto a sul do Cuango evitando os embargos do Jaga do Cassanje, sempre arvorado em senhor dessas fronteiras. 
    A 13 de Junho de 1846, Rodrigues Graça, enfrenta um régulo de Cajanga ordenando
aos seus homens, municiados com mais de quinhentos bacamartes e pistolas, que largassem as cargas e formassem três pelotões para cercar Cajanga. Assim conseguiu prosseguir caminho sem necessidade de luta porque o régulo e sua comitiva ficaram intimidados. 
     Nesta altura, Rodrigues Graça avistou as margens do Cassai na sua trajectória nascente, rumo a leste, julgando tratar-se de um afluente do Zambeze. Desconhecia ainda que este rio descia depois a norte, a cortar a Lunda, para desaguar finalmente no grande Congo
     Encontrava-se na terra dos Quiocos, povo irmão dos Lundas e empurrados para Sul, subjugados.
     Pelo começo de Setembro de 1846, a expedição de Rodrigues Graça passou o rio Luiza e cumpriu trezentas léguas de viagem desde o Bié. Nesta ocasião, avistou pela primeira vez o régulo, imperador Muatiânvua – aquele a quem chamavam de Noeji, de mediana estatura, mais delgado que robusto, lábios grossos, nariz chato, rosto comprido, cor retinta, calvo, mas usando peruca.



     E assim se apresentou Rodrigues Graça ao rei da Lunda, Muatiânvua da Mussumba: 
   “Muatiânvua, perante vós me apresento como enviado extraordinário de Portugal (Muene Puto), como embaixador, para comunicar-vos que são veementes desejos do seu governador em Angola abrir comunicações com o vosso Estado. A fama de vosso nome, bem como de vossas acções, há muito têm chegado aos ouvidos de Sua Majestade. Eu sou o órgão por cuja voz o meu governo vos deseja conhecer melhor”. 
     Em Janeiro de 1848, Rodrigues Graça regressa a Cassanje. Antes deste sertanejo, outros de Angola chegaram à região das Mussumbas para fazer negócio na corte do Muatiânvua, mas foi ele o primeiro português, aliás o primeiro europeu, que dela deixou um relato escrito.
     Silva Porto conseguiu ao longo do tempo construir no Bié, em pleno planalto central
de Angola, um pequeno empório, movimentando muitas mercadorias, muita mão-de-obra e, também, armas para defesa das suas caravanas. 
     A sua libata de Belmonte, feita de colmo e adobe, tinha o seu quê de imponente à sombra da bandeira azul e branca e adquiriu uma reconhecida importância estratégica. Foi em 1842, três anos depois de se iniciar como sertanejo, que Silva Porto fundou o seu estabelecimento. A ativíssima libata de Belmonte tornou-se famosa e viria a transformar-se numa cidade. É hoje Kuito, capital da província do Bié. Durante o regime colonial e até 1975, foi chamada de Silva Porto.
     Em 1852, quando estava na força dos 34 anos – e já com 15 anos em África, foi desafiado a empreender uma viagem. O governador de Benguela encarregou Silva Porto em 30 de Maio de 1852 fazer a viagem de Angola a Moçambique, que largou do Bié em 20 de Novembro. Em Fevereiro de 1853, chegou a Lialui que já tinha sido a capital do império do Barotze. Este potentado conglomerava politicamente mais de 25 tribos, estendendo-se por áreas que hoje correspondem a partes da Zâmbia, Zimbabué, Botswana, Namíbia, Angola e Moçambique. 
     A 13 de Julho de 1853 Silva Porto encontra Livingstone, no Barotze. 


     António da Silva Porto (1817-1890), o veterano do Bié, era o herdeiro e o representante anónimo da antiga presença comercial dos portugueses na África Austral. Tinha à sua frente David Livingstone (1813-1873), que então cumpria a primeira das três grandes expedições a África.
     Vindo da cidade do Cabo, Livingstone tinha atravessado o deserto do Kalahari e ultrapassado o lago Ngami, alcançando Quelimane e o Índico três anos depois.
     Em 1841, Joaquim Mariano e Francisco da Fonseca já negociavam em Nialele com o rei Riumbo, por ordem de Silva Porto.

Nota: Sobre o grande explorador HENRIQUE DE CARVALHO E A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO LUNDA, leiam “LESTE DE ANGOLA Nº. 12”

 Memórias de um passado saudoso

HENRIQUE AUGUSTO DIAS DE CARVALHO  Major do Estado Maior de   Infantaria – Explorador (1843 – 1909)

EXPEDIÇÃO À REGIÃO DA LUNDA, no Leste de Angola, entre 1884 e 1888 
PESQUISAS: “EXPLORADORES PORTUGUESES E REIS AFRICANOS” de Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde, e diversos na internet

Até Breve
O Amigo 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE" VII


Nota Introdutória
     Longas tardes se passaram naquela piscina, local de encontro deste povo citadino Saurimense. Aprazível para residentes e para os “migrantes” ocasionais. Soldadesca esverdeada e azulada conviviam com os civis numa camaradagem ímpar. Assim se vivia o clima de guerra por terras africanas!... 
Marrador - Depois deste duo acrobata ter passado um bom fim-de-semana na capital da Lunda…Depois de tanto entretenimento faustoso e gabarola….Havia que recolher ao casulo, à caserna militar. A “Base” distava poucos quilómetros, mas à pata, ninguém se sujeitava! Vamos desengatilhar o amuo dos artistas!...
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VITO – A caminho da toca?
JOCA – Toca…toca!... Já tinhas saudades?
VITO – Tinha, e não tinha! Há que deixar passar o tempo de comissão. Não há outra alternativa!...
JOCA – Deixa, não te lamentes. Goza esta boleia a caminho do A.B.4.
VITO – Boleia? Olha, os mangalas estão à nossa espera no meio da picada?!
JOCA – Chiuuu! Estão à espera do sanzaleiro!... Aproveitemos a Mercedes.
VITO – Pois, é melhor esta carreta da FAP do que ir a pé como o Cibrão e o Zé Soares.
JOCA – Foram a pé?
VITO – Sim, perderam o transporte e tiveram que caminhar sete quilómetros pela noite fora. Apanharam um “cagaço” que juraram não andarem mais pelas salas de visita da cidade. Quem se mete em atalhos, mete-se em “taralhos”…lá diz o ditado.
JOCA – “Taralhos”!... sempre com a boa educação na ponta, na ponta da língua!...
VITO – Cuidado!...Cu…Cu…Cuidado, “aprochega-se” o arame farpado!...
JOCA – “Induka”!... Parece-me que estão todos à nossa espera!...
VITO – Bruxo!…Deve ser por causa dos sanzaleiros!... Algum soba se queixou com o assalto às suas concubinas.
Marrador – Já dentro do arame farpado, os “chamuanzas” vaidosos no seu estilo continuavam no palreio. Queixavam-se, mas no fundo, até havia condição aceitável para passar o tempo de forma menos enfadonha. Sempre havia o cinema no velho Hangar, confraternizações acerbadas, petiscos no Bar e nas Secções de trabalho, tocatas recatadas, praxes de maçaricos, Carnavais, Passagens de Anos, Aniversários, jogos, leituras descansadas, circuitos de “kingas”, caçadas, recordações familiares e amorosas e captação de fotos sobre a juventude galã e…das savanas guerreiras. Mas mais do que palavras, O VITO e o JOCA vão “botar” umas fotos que farão recordar as vivências de outrora. Resumo dos seus actos em terras de negridão. Recordações até ao último sopro!... Puxem pela “cachimónia”.

JOCA – Bem, regressámos ao A.B.4, regressámos aos nossos afazeres repetitivos…
VITO – Sim. Mas amanhã é diferente. Temos um aniversário dentro do nosso grupo. Haverá mais calor humano! Cuca à fartazana!...
JOCA – Aniversários, convívios, distracção!... Não fosse isso, morreríamos de tédio, saudade, tristeza e apanágio!
VITO – Acalma-te meu! O tempo é passageiro. Um dia, quando as galinhas tiverem dentes…irás gostar de recordar estas passagens pelo Continente Mistério!...
JOCA – Até lá,… tenho que pôr a escrita em dia. Devo dar notícias à família, e quero saber as novidades do “puto”, também.

VITO – Notícias, nostalgia do longínquo jardim à beira mar plantado! Queres é namoriscar a tua catraia… Piu, piu, piu…
JOCA – Sempre se anima ao ler uma cartita feminina!... Depois, os velhotes, família, e amigos que nos esperam para reactivarmos a vida caseira!... Enfim, muita coisa tem mudado enquanto permanecemos por estas bandas, no cú de judas!
VITO – Eh!... Tens razão! Mas olha! Olha que a nossa camarata é o nosso albergue! Muitas lágrimas choradas no silêncio!... O que nos vale são os laços de amizade. União de todos numa missão idêntica. Aguardar, gastando esta fatia temporal da nossa juventude.
JOCA – Aguardar pacientemente! 
VITO – Matar o tempo!...
JOCA – Não tanto assim, mas quase!... Temos jogos, diversão diversa. Não andamos na guerra tal e qual o exército. Há calmaria nesta zona!...
VITO – Sim, ainda nos damos ao “luxo” de podermos ler um livro, revista ou, jornal, de forma descontraída, sem ter que ouvir os tiros da guerra.
JOCA – Temos biblioteca, temos um ringue para desportos. Pratica-se quase de tudo e temos torneios pela Província.
VITO – Somos uns campeões!... Futebol de salão, andebol de sete, e que mais!...
JOCA – Encaramos esta estadia como um emprego se tratasse, como emigrantes, deslocados. Uns, trabalham na Esquadrilha de Abastecimento. Outros, no Hangar, na reparação de aviões, e outros, na Torre de Controlo, tipo vigia. “Tá-ri-táris”, “rum-runs”, Meteos, e que mais!...
VITO – Sim, no fundo até há actividades interessantes!... A mim, calhou-me a especialidade de falar para o ar, mas gostava mais de ter sido pilotaço!...
JOCA – Voa, voa…em sonhos! Todas as especialidades são bonitas. Até a de enfermaria para podermos dar umas injecções às garinas.

VITO – Uihhh…Uih…Mete o “xico”.
JOCA – Aqui? Isso é coisa que se mete no “quimbo”. E, com cuidado!...
VITO – Logo à noite, como é que é? Vais jogar ao bingo?
JOCA – Nãoooo!... Vou escrever, descansar, e ouvir uma musiquinha do aparelho do Quim.
VITO – Também me acho um pouco amolecido. Talvez siga o teu exemplo. Amanhã terei uma jogata de futebol de salão com o pessoal…
JOCA – Mas há outro torneio em disputa?! Ouvi falar o nosso Paulus que iria estar de serviço na arbitragem.
VITO – Sim, parece-me que temos exercício aplicado nas arenas da bola.
JOCA – Esta semana será agitada. Além do aniversário do Russo, teremos um belo filme no Hangar. “A filha de Ryan”, com os célebres actores Robert Mitchum, Trevor Howard e Sarah Miles. Enfim, um drama dirigido por David Lean.
VITO – Eh pá!... Não posso perder essa película. Compra já “two tickets four nous”. 
JOCA – Os bilhetes?!... compro mais logo. E pensando melhor, antes de irmos para as palhinhas fofas…vamos visitar o “Camone” à pildra. Ele fica contente, faz-se-lhe um pouco de companhia, anima-se e fumaremos o cachimbo da paz nesta quadra festiva do Natal que se aproxima.
VITO – Vou nessa. Afinal, também é “especial”, e o que fez não foi crime nenhum!...
JOCA – Para animar, até podíamos seguidamente ver as árvores de Natal, lá no Clube. Por certo, já devem estar preparadas a rigor.
VITO – Queres é ouvir um fadito e mamar uma Cuca!...
JOCA – Terminar o dia em beleza…
VITO – Mas…sem demoras. O galo canta cedo!....
JOCA – Ok. OK. Meu!
Nota Final: Estes sete temas narrados nas “Conversas na cidade” foram o apetrecho para fazerem lembrar os tempos passados no Leste de Angola. Quarenta e poucos anos já cá cantam!...Outros tantos, não diremos! Foi feita a triangulação do A.B.4, cidade, quedas do Chikapa – de forma aligeirada. Alguns ditotes da época, alguma prosa em Quiouco, malandrice camuflada!... Na altura, houve momentos de profunda tristeza porém, hoje, recordamos com saudade essa juventude atribulada. É bom reviver esse passado! Foi bom ter reencontrado muitos de vós. Haja saúde para continuarmos alegres e participantes por mais alguns anos. Até breve. 
O amigo e  companheiro: