terça-feira, 22 de outubro de 2019

MOXICO: UMA TERRA RICA COM UMA POPULAÇÃO POBRE


Passei os últimos dias na Província do Moxico, no quadro de um megaprojecto de investigação científica (a ser desenvolvido por uma equipa de 37 investigadores e cientistas sociais angolanos e estrangeiros, de que faço parte) que abrange o território compreendido pelas províncias do Kwanza Sul, Benguela, Namibe, Huíla, Huambo, Bié e Moxico (incluindo o Oeste da Zâmbia).

Mas no presente texto, à maneira de crónica, centrarei minhas atenções àquela que é a maior província de Angola.

Moxico (com 223 023 quilómetros quadrados) é tão grande em extensão, que a Bélgica, a Holanda, o Luxemburgo e a Inglaterra caberiam na província e ainda sobrariam 20 986 quilómetros quadrados de espaço. Atravessar em linha recta a província, do Oeste para o Leste, de carro, a 120 Km/h, sem pausa, levaria cerca 12 horas.

Mas não é apenas a sua extensão que é impressionante. Moxico também possui uma elevada quantidade de recursos naturais, tais como carvão, cobre, manganês, ferro, diamantes, ouro, volfrâmio, estanho, molibdénio, urânio, lenhite e madeira. O solo da província é rico e produz bens essenciais como massango, batata-doce, girassol, vielo, arroz, mandioca e milho.
Um outro recurso que abunda da gigantesca província é o mel. Mel de alta qualidade, aliás.
O estratégico Caminho de Ferro de Benguela passa praticamente a meio da província e faz ligação com a Zâmbia e outros países.
As duas grandes zonas industriais do Moxico localizam -se nos municípios do Moxico e do Luau.

Percorri a pé Luena de Leste a Oeste e de Norte a Sul. A última vez que eu estivera na cidade foi em Maio de 2007. Passados 12 anos, já não encontrei a cidade-fantasma onde localizar um hotel ou hospedaria era como localizar o Palácio do Conde Drácula. Em todo o caso, o número de hotéis ainda não está à altura das demandas.
Luena é uma cidade limpa, organizada e tranquila. O trânsito é ordeiro. Há sinais de obras de raiz, de reconstrução e de requalificação em diversos pontos da mesma. Mas não tem sinais de trânsito electrónicos, os quais existem no Kuito e funcionam dia e noite.

A Praça da Paz consiste num complexo ecoturístico e cultural cujo elemento principal é o Monumento da Paz, erigido para homenagear a paz, os esforços dos Angolanos em busca dela e, é claro, a assinatura dos Acordos de Luena. Moxico é a província onde foram desenvolvidas duas das grandes guerrilhas da Luta de Libertação Nacional, levadas a cabo pelo MPLA e pela UNITA. A famosa Frente Leste. Moxico é onde Jonas Savimbi começou e concluiu o seu intrigante e circular percurso guerrilheiro.
A Praça da Paz possui uma biblioteca, uma mediateca móvel e uma espécie de jardim botânico, cujas árvores possuem placas de identificação científica, informando os visitantes sobre o nome científico de cada árvore, o nome local, a sua espécie etc. Mas a sua piscina não funciona. Por outro lado, existe uma lixeira ao lado da mediateca.

Visitei Lucusse. Observei os anais do mítico Rio Lungue-Bungo. Visitei também a Comuna de Calunda (no Alto Zambeze), onde jazem os restos mortais de incontáveis vítimas dos trágicos acontecimentos de 27 de Maio de 1977, detidos e presos em Luanda e levados para lá, onde passaram fome, sede, foram torturados e apoquentados por diversas doenças. A vasta maioria não regressou. Morreu lá.

Entretanto, ao viajar pelos extensos municípios da província do Moxico, constatei, mais uma vez, as grandes diferenças entre Luena, as sedes municipais e o interior (de cada município): a pobreza agreste e a miséria inenarrável de uma população que merece ter uma qualidade de vida condicente com as enormes quantidades de riqueza natural existentes na sua província.
O Bairro Zorró e o Bairro 4 de Fevereiro são exemplos de assentamentos humanos cujas condições de vida dão a entender que os moxiquenses são donos de uma terra que só tem areia e umas lagoas.
A realidade socioeconómica da população do Moxico é trágica, porquanto apenas uma pequena fracção da sua população vive de forma decente.
A pobreza agreste fica evidente nas crianças que passam o dia a vender carne, bebidas, frutas e outros produtos. Essas crianças não frequentam a escola. Na verdade, muitas simplesmente desistiram da escola por força da necessidade de ajudarem os pais a sustentar a família.

De facto, Moxico é uma terra rica com uma população pobre, vítima da má governação, do saque do erário, do cabritismo, dos nepotismos, filhotismos, sogrismos e outros males levados a cabo e consolidados durante os (in)esquecíveis quase 30 anos de João Ernesto dos Santos, ele que geriu a província como se fosse sua propriedade.
Uma análise ao OGE 2019 demonstra que Moxico continua longe de receber a fatia orçamental à altura das suas necessidades e dos seus desafios de crescimento e desenvolvimento.
Quanto ao novo governador, Gonçalves Muandumba, é evidente que a sua gestão, apesar dos esforços, é limitada por uma série de obstáculos e constrangimentos que decorrem do anacrónico regime de gestão administrativa do MPLA, que, na prática, é ineficiente e, como tal, ineficaz.
O governador considera de forma inequívoca que a sua gestão é afectada pela escassez ou insuficiência de recursos naquela que é a maior província de Angola. Obviamente, a sua gestão em si deve ser também questionada.
Quanto à juventude, preocupa -me que seja, na sua maioria, amorfa e tenha uma visão ingénua da governação. Os jovens são acríticos e possuem uma visão muito estreita do que é cidadania e qualidade de vida.

Independentemente disto, a população do Moxico tem direito ao desenvolvimento e à qualidade de vida.


Nuno Álvaro Dala
24 de Setembro de 2019

terça-feira, 8 de outubro de 2019

QUANDO ME TORNEI INVISÍVEL!...



Já não sei em que datas estamos!...
                                                ENVELHECER É PURA POESIA.
                                            Até o sorriso fica entre aspas!...


Nesta casa não há folhinhas, e na minha memória tudo está revolto!... 
As coisas antigas vão desaparecendo e, eu, apago-me sem que ninguém dê conta. 
Quando a família cresceu, trocaram-me de quarto. Depois, passaram-me para outro menor ainda acompanhada das minhas netas. Agora, ocupo o anexo…no quintal traseiro. 
Prometeram-me mudar o vidro partido da janela, mas esqueceram-se. E nas noites…que por ali sopra um ventinho gelado, aumentam mais as minhas dores reumáticas. 
Um dia, à tarde, dei conta que a minha voz desapareceu. Quando falo, os meus filhos e netos não me respondem. Conversam sem olhar para mim, como se eu não estivesse com eles. 
Às vezes digo algo, acreditando que apreciarão os meus conselhos, mas não me olham, nem me respondem. Então, retiro-me para o meu canto, antes de terminar a caneca de café. Faço isso para que compreendam que estou triste e para que me venham procurar e me peçam perdão…mas ninguém vem! 
No dia seguinte disse-lhes: Quando eu morrer, então sim vocês irão sentir a minha falta. E meu neto perguntou: Estás viva avó? (rindo). 
Estive três dias a chorar no meu quarto, até que numa certa manhã, um dos netos entrou para guardar umas coisas velhas. Nem bom dia me deu, e foi então que me convenci de que sou invisível. 
Uma vez os netos vieram dizer-me que iríamos passear pelo campo. Fiquei muito feliz porque, fazia tanto tempo que não saía! 
Fui a primeira a levantar-me, quis arrumar as coisas com calma, porque afinal, nós velhos, somos mais lentos. Assim, arranjei-me a tempo de não me atrasar. Em pouco tempo, todos entravam e saíam correndo pela casa, atirando bolas e brinquedos para o carro. 
Eu já estava pronta e muito alegre. Parei na porta e fiquei à espera. 
Quando se foram embora, compreendi que eu não estava convidada, talvez porque não cabia no carro. Senti que o coração encolhia e o queixo tremia, como alguém que tivesse vontade de chorar. Entendo-os…são jovens, riem, sonham, abraçam-se, beijam-se e, eu, e…eu! 
Antes beijava os meus netos, adorava tê-los nos braços como se fossem meus. E até cantava canções de embalar que tinha esquecido. Mas um dia… 
Um dia a minha neta que acabava de ter um bebé me disse que não era bom que os velhos beijassem os bebés por questões de saúde. Desde então não me aproximo mais deles, tenho tanto medo de contagiá-los! Não tenho mágoa por eles, perdoo a todos porque, que culpa têm eles que eu me tenha tornado invisível? 

Notas: Texto composto por Sílvia Castillejon Peral e alterado por mim em certas frases e imagens. 

Vítor Oliveira

terça-feira, 7 de maio de 2019

A PROFESSORA (Antigamente é que era bom!)


Quando os meninos me pediam "papel macio pró cu e roupa boa prá gente"…
Um dos textos que mais me custou a escrever e por isso tem mais lágrimas do que palavras.

Estávamos ainda no século XX, no longínquo ano de 1968, quando a vida me deu oportunidade de cumprir um dos meus sonhos: ser professora. 
Dei comigo numa escola masculina, ali muito pertinho do rio Douro, na primeira freguesia de Penafiel, no lugar de Rio Mau.
Era tão longe, da minha rua do Bonfim, não podia vir para casa no final do dia, não tinha a minha gente, e eu era uma menina da cidade com algum mimo, muitas rosas na alma, e tinha apenas 18 anos.
Nada me fazia pensar que tanta esperança e tanta alegria me trariam tanta vida e tantas lágrimas.
Os meninos afinal eram homens com calos nas mãos, pés descalços e um pedaço de broa no bolso das calças remendadas.
As meninas eram mulheres de tranças feitas ao domingo de manhã antes da missa, de saias de cotim, braços cansados de dar colo aos irmãos mais novos, e de rodilha na cabeça para aguentar o peso dos alguidares de roupa para lavar no rio ou dos molhos de erva para alimentar o gado.
As mães eram mulheres sobretudo boas parideiras, gente que trabalhava de sol a sol e esperava a sorte de alguém levar uma das suas cachopas para a cidade, “servir” para casa de gente de posses.
Seria menos uma malga de caldo para encher e uns tostões que chegavam pelo correio, no final de cada mês.
Os homens eram mineiros no Pejão, traziam horas de sono por cumprir, serviam-se da mulher pela madrugada, mesmo que fosse no aido das vacas enquanto os filhos dormiam (quatro em cada enxerga), cultivavam as leiras que tinham ao redor da casa, ou perto do rio e nos dias de invernia, entre um jogo de sueca e duas malgas de vinho que na venda fiavam até receberem a féria, conseguiam dar ao seu dia mais que as 24
horas que realmente ele tinha. Filhos, eram coisas de mães e quando corriam pró torto era o cinto das calças do pai que “inducava” … e a mãe também “provava da isca” para não dizer amém com eles…
E os filhos faziam-se gente.
E era uma festa quando começavam a ler as letras gordas dum velho pedaço de jornal pendurado no prego da cagadeira da casa…o menino já lia.. ai que ele é tão fino… se deus quiser, vai ser um homem e ter uma profissão!
Ai como a escola e a professora eram coisas tão importantes!
A escola que ia até aos mais remotos lugares, ao encontro das crianças que afinal até nem tinham nascido crianças…eram apenas mais braços para trabalhar, mais futuro para os pais em fim de vida, mais gente para desbravar os socalcos do Douro, mais vozes para cantar em tempo de colheitas.
E os meninos ensinaram-me a ser gente, a lutar por eles, a amanhar a lampreia, a grelhar o sável nas pedras do rio aquecidas pelas brasas, a rir de pequenas coisas, a sonhar com um país diferente, a saber que ler e escrever e pensar não é coisa para ricos mas para todos, para todos.
E por lá vivi e cresci durante três anos e por lá fiz amigos e por lá semeei algumas flores que trazia na alma inquieta de jovem que julgava conseguir fazer um mundo menos desigual.
E foi o padre António Augusto Vasconcelos, de Rio Mau, Sebolido, Penafiel, que me foi casar ao mosteiro de Leça do Balio no ano de 1971 e aí me entregou um envelope com mil oitocentos e três escudos (o meu ordenado mensal) como prenda de casamento conseguida entre todos os meus alunos mais as colegas da escola mais as senhoras da Casa do
Outeiro. E foi na igreja de Sebolido que batizou o meu filho, no dia 1 de janeiro de 1973.
E é deste povo que tenho saudades. O povo que lutou sem armas, que voou sem asas, que escreveu páginas de Portugal sem saber as letras do seu próprio nome.
Hoje, o povo navega na internet, sabe a marca e os preços dos carros topo de gama, sabe os nomes de quem nos saqueia a vida e suga o sangue, mas é neles que vai votando enquanto continua á espera de um milagre de Fátima, duns trocos que os velhos guardaram, do dia das eleições para ir passear e comer fora, de saber se o jogador de futebol se zangou com a gaja que tinha comprado com os seus milhões, e é claro de ver um filmezito escaldante para aquecer a sua relação que
estava há tempos no congelador.
As escolas fecharam-se, os professores foram quase todos trocados por gente que vende aulas aqui, ali e acolá, os papás são todos doutores da mula russa e sabem todas as técnicas de educação mas deseducam os seus génios, os pequenos /grandes ditadores que até são seus filhinhos e o país tornou-se um fabuloso manicómio onde os finórios são felizes e os burros comem palha e esperam pelo dia do abate.
Sabem que mais?!
Ainda vejo as letras enormes escritas no quadro preto da escola
masculina, ao final da tarde de sábado, por moços de doze e treze anos com estes dois pedidos que me faziam: “Professora vá devagar que a estrada é ruim, e não se esqueça de trazer na segunda-feira, papel macio pró cu e roupa boa dos seus sobrinhos prá gente”.
Esta gente foi a gente com quem me fiz gente.
Hoje, não há gente… é tudo transgénico .
O povo adormeceu à sombra do muro da eira que construiu mas os senhores do mundo, estão acordadinhos e atentos, escarrapachados nos seus solários “badalhocamente” ricos e extraordinariamente felizes porque inventaram máquinas e reinventaram novos escravos.

Dizem que já estamos no século XXI...”

Profª. Lourdes dos Anjos

terça-feira, 30 de abril de 2019

HÁ VIDAS ASSIM...

Faleceu em 11 do corrente,  na sua residência, em Coimbra, com 77 anos.
Prescindiu da fortuna que os pais lhe deixaram para ajudar os outros.
Um sem-abrigo que ensina alunos da Faculdade a custo zero.
Uma celebridade que merecia honras de Estado.
Cansado de lidar com gente que se faz passar por aquilo que não é, depois de ver as igrejas cheias de pecadores e os cemitérios com tanta gente nobre, partilho este exemplo de mais um dos meus heróis anónimos.
Este Senhor que para muitos é um sem-abrigo, é um homem nobre. Professor Universitário aposentado, licenciado em Engenharia com distinção, co-autor de livros de matemática e engenharia, prescinde da sua confortável reforma para ajudar os que precisam mais do que ele. Não tocou na fortuna que herdou dos pais e não usa o carro topo de gama que o pai lhe ofereceu. 
Na sua humilde casa ou em locais públicos, ensina os jovens universitários e outros estudantes que o procuram, sem nunca cobrar um cêntimo. 
Vive com o indispensável para sobreviver e recusa ajudas porque é um " homem rico " e tem a vida que escolheu. 
O Engenheiro Valdemar Caldeira não vai gostar, não lhe digam nada... O Engenheiro Caldeira não tem facebook, nem computador, nem telemóvel. 
Mas tem tempo, esperança e solidariedade para dar a quem precisa. 
Que lição de vida!

Todos nós, em Coimbra o conhecemos e já nos cruzámos várias vezes com este SENHOR!!!
Obrigada, desconhecia o nome mas sempre me impressionou o seu passo decidido de quem tem muito que fazer e sabe para onde vai! Que Deus o abençoe. Nesta Coimbra cheia de pessoas muito importantes que não têm importância nenhuma é reconfortante ver um filho de Deus sem importância, imensamente importante. Não será necessário dizer-lhe qualquer coisa...bastará um olhar de simpatia...um sorriso de cumplicidade.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O MAR – A VASTIDÃO QUE NOS ATRAI E NOS REPRIME!


“ Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.”

   

Um dia sonhei ser marinheiro! 
E nessa impossibilidade de o não ter sido, visito o mar com frequência. 
Com um velho amigo, parto de bicicleta todas as sextas
feiras deste limiar ocidental onde habitamos. 
Atravessamos o que outrora foi um mar verdejante…para alcançarmos, por fim, o outro mar --- o Azul. 
No percurso, somam-se recordações saudosas duma infância distante, sentimos os odores da mata queimada, ultrapassamos vezes sem fim as tiras sombrias dos pinheiros esguios e depenados reflectidas no asfalto…espectros ainda de pé! 
Activa-se o corpo, distrai-se a mente e presenciamos o momento, pedalando…

Da terra, chega-se ao mar. E no “cume da cabeça, onde a terra se acaba e o mar começa, e onde Febo repousa no oceano”, ficamos prostrados defronte da vastidão que nos atrai e reprime – o Penedo da Saudade, o Penedo da Duquesa de Caminha.

Aqui, descansamos, saboreamos a nossa fruta, humedecemos os lábios, e conversamos com o nosso amadurecido companheiro “Pelikan”, o pescador de cana. Enfim, o “velho e o mar” que há muito nada pesca. Este, não é o de Cuba, nem o do espadarte. É o velho “Pelikan” de Portugal, onde o peixe também rareia.
Com ele, eis a pergunta acostumada: Que pescaste hoje, “Pelikan”? Ele, hesitante… confessa. Nada, mas tenho peixe!
Horas a fio, retirei a linha do mar, repus o isco, lancei a linha e esperei, esperei. Nada!
Por fim, dois pescadores de barco ao largo do Penedo, ao recolherem as redes, puxaram-me a linha com as mãos, e vendo que não tinha peixe, colocaram na farpa um robalo de quilo e meio. Enfarpado, gritam do mar…puxa, puxa!
O “Pelikan”, rolando o carreto puxou, puxou a amizade oferecida pelos seus concorrentes de pesca. A rivalidade restabeleceu-se e, o pescador da cana refez-se na paz com o pescador da rede. O que um não tirou pescando no cimo, deu-o o outro, lá em baixo.
Partimos, lambendo o corrediço marítimo. E, do farol, pedalámos pelo cimo da Praia da Concha, Praia Velha, serpenteando os pinheiros corcundas…para nos refugiarmos no Old Beach Bar. O “Peter Café Sport”, não o do Faial, mas o do Canto do Ribeiro.
Desta cabana, também se avistam os homens livres marítimos, que percorrem um mundo belo, extenso, sem fronteiras de raça nem de costumes!
Se viajares tu, leitor desta crónica, até ao Canto do Ribeiro e não visitares o “Old Beach”, não vistes os horizontes da Praia Velha …,… velha como nós, já septuagenários!...

A vastidão do mar e a imensidão de idades!



Notas: Versos de Sophia de Mello Breyner Andresen, anotações de Camões, referências a Ernest Hemingay (o Lobo e o Mar) e, ao Peter Bar, no Faial.



Vítor Oliveira 


terça-feira, 7 de agosto de 2018

ÉRAMOS MIÚDOS DE CALÇÕES SUJOS...


...e às vezes ouvíamos estas músicas lá em casa. 
Ainda não nos puxavam o pé porque nessa altura o pião que atirávamos e o rodopiar dele na calçada persistiam em enfeitiçar-nos os olhos.

Achávamos estranho a excitação que tomava conta dos nossos irmãos mais velhos, dos amigos e amigas deles, de alguns nossos vizinhos lá no bairro, porque se punham a bambolear todos chegadinhos quando o gira-discos espalhava estes sons melosos na
garagem, não percebíamos a urgência dos olhares, os códigos dos gestos e das aproximações nervosas, ainda eram outras as ânsias que nos absorviam, o Peugeot azul lindo da Dinky Toys que aquele meu amigo já tinha e eu ainda não, voar rua abaixo no carrinho de rodas de esferas que talvez me deixassem usar, conseguir que a mãe me desse 15 tostões para comprar aquele abafador olho-de-boi vermelho escuro (parecia-me que todos os outros miúdos já tinham abafadores enormes e espantosos, e eu não passava de meia dúzia de berlindes meio riscados e baços)...

Éramos miúdos de calções sujos e não percebíamos por que razão alguém ia a correr pôr a agulha do gira-discos mais uma vez no início da música...

fpb
Junho, 2014

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

O PIROLITO, o Cachorro do ZÉ MARIA, o 47.

Conto dedicado a todos os Ex Combatentes da Guerra do Ultramar.

Olá. Vou apresentar-me:
Sou um cachorro, meio rafeiro, e o que se pode chamar, um cachorro "Sem Abrigo".
Sim, sou um cão "Sem Abrigo".
Eu e o meu dono, o ZE MARIA, o "47", somos ambos "Sem Abrigo". Dormimos num "vão de escada" e podem acreditar que somos felizes. (Eu vou dizer-vos um segredo: Percebo tudo, tudo, o que os humanos dizem).
Mas, como tudo aconteceu?--perguntam vocês.
Eu vou contar, embora abreviando a historia da minha vida.
Tive uns donos que me estimavam, que viviam numa vivenda super luxuosa, grande, e onde também havia 3 crianças que eram os meus companheiros de brincadeiras. Os seus pais, e meus donos, tinham nome fino: Condes Sá de Vilhena, Valdemor e Saragoça Stein. Só que, quando cresci mais, num certo dia puseram-me fora de casa.Tudo porque eu corria pela casa, saltava atrás das bolas e dos meus 3 amigos e porque fiz xixi numa das salas. É que eu não sabia que não podia fazer tudo aquilo...
Ralharam muito comigo e fui acorrentado no quintal com uma corrente curta, e pesada. Passaram a ralhar sempre comigo, por tudo e por nada o que me entristecia imenso.
Até que um dia colocaram-me no carro.
Pensei: Vamos todos passear.
Andámos vários Kms, muito tempo, até que pararam o automóvel no meio de uma estrada muito comprida, longe de tudo, só com um pinhal em redor. Abriram a porta do carro e atiraram-me para a estrada, fugindo com o carro a alta velocidade.
Fiquei espantado! Ainda pensei: "Seria uma brincadeira nova? "
Corri atrás do carro o mais que pude, até não poder mais de tão cansado, vendo os meus 3 amiguinhos a gritar por mim e a chorarem, com as carinhas deles encostadas ao vidro traseiro do automóvel. Mas o carro desapareceu lá no fim e nunca mais o vi.
Esperei por eles vários dias, no pinhal ao lado daquela estrada comprida, mas, cheio de fome, frio, sede e medo, tive que me pôr ao caminho, por carreiros, estradas, mais carreiros, aldeias, onde fui escorraçado, espancado e até atropelado.
Muito ferido nas patas traseiras, andei, como pude, dias e noites, arrastando-me, até que cheguei , muito fraco, esquelético e faminto, a uma grande cidade cheia de gente mas que também me afastavam deles.
No fim de um certo dia, dia de chuva forte, todo molhadinho e a tremer, encostei-me a um canto de uma casa velha à espera da morte, desejando que ela viesse buscar-me depressa.
Nada me prendia à vida. Viver, para quê??
Mas... ouvi assobiar. Alguém a chamar por mim, com uma voz rouca:
"É ! cãozito!! Não tenhas medo, não fujas. Que foi que te fizeram, meu amigo?"
Olhei. Era um senhor de idade, cabelos e barba brancas, com ar de abandonado, como eu.
Ele, novamente:
"Olha como tu estás!! Quem te fez isto?! Quem te tratou assim, tão mal, amiguinho ?! Vou tratar de ti, não tenhas medo."
Devagar, aproximou-se e pegou-me ternamente ao colo. Levou-me para o vão de umas escadas velhas, e embrulhou-me no seu sobretudo cinzento.
Só ali o fixei melhor. Nos olhos. E, naquele momento, nasceu logo uma forte amizade entre nós.
Tratou de mim varias semanas, curou-me e conseguiu que eu andasse de novo, sem arrastar as minhas patas traseiras.
Passámos a andar juntos. A dormir juntos. A percorrer juntos toda a cidade.
E... um dia deu-me um nome:
PIROLITO.
E PIROLITO fiquei, tendo eu esquecido o meu outro nome, Boby.
Este meu novo e grande amigo e dono era muito engraçado. Dizia-me ser ZÉ MARIA, o 47.
Às vezes cantava muito alto, cantigas que eu desconhecia: "Heróis do Mar, Nobre Povo Nação Valente e Imortal ", outras vezes cantava: "Soldado Que Vais Para a Guerra", outras era: "Angola é Nossa, Gritarei" , e muitas outras cantigas.
Por vezes, gritava: "Ataquem!! Eles estão ali no capim!! Atirem!!!! ". Já em outras noites, chora baixinho, encolhido na sua manta velha, naquele " vão de escadas" onde ambos dormimos.
O 47 fala muito de uma terra muito longe e que se chama Angola, e de um amor que lá teve e que lá ficou também. Fala também dos nomes de muitos camaradas da tropa que lá morreram em combate, e diz, amargurado, que ninguém quer saber deles nem de nenhum militar que veio de lá, mesmo os que vieram com vida. Nesses momentos, põe-se de repente em pé, muito direito, bate pala e assim fica largos minutos. E chora, chora quando fala nisto.
Muitas vezes o 47 é mal tratado na rua: Chamam-lhe malandro, mandam-no trabalhar, dizem que só prejudica uma tal Segurança Social e outras coisas feias. Alguns até lhe gritam:" Vai mas é ter com a tua Bernadete! "Ele, fica triste, de olhos no chão e sem falar.
Há dias cruzàmo-nos com um senhor de cara bondosa, sorriso de manso, todo vestido de preto. Mas, estranhei: ele tinha ao pescoço uma coleira branca que me fez lembrar a coleira que eu tinha na tal vivenda luxuosa.
Este senhor vestido de preto olhou para nós com desprezo, apressou o passo e fez que não ver a mão estendida do 47.Ouvi então a voz rouca do meu dono murmurar baixinho: "Padres, padres...são todos iguais".
Nessas alturas eu gostava de ter braços como as pessoas para o poder abraçar e poder beijar .Como não tenho, chego-me a ele , lambo-o nas barbas brancas e bebo-lhe as lágrimas que lhe caiem dos olhos.
Há até alguns que lhe roubam as poucas moedas que ele por vezes tem no bolso fundo do sobretudo velho acinzentado.
Há uma pessoa que o trata bem:
Aquela moça bonita, de voz doce, que lhe dá sorrisos, carinho e felicidade.Que lhe oferece um chocolate preto e faz-me festas, dá-me beijinhos e biscoitos saborosos. Aparece de vez em quando e vai embora sempre a chorar e a olhar para trás, para nós. Lá ao fundo, acena sempre e atira-nos beijos com a mão, delicadamente.
Quem será????
O 47 nunca me falou dela mas fica sempre triste quando ela desaparece lá ao fundo, na esquina.

Agora, oiço nas ruas , as pessoas dizerem que vem aí o Natal. Vejo-as passar com embrulhos bonitos, mas ninguém olha para mim nem para o 47.
Não faz mal. Eu olho para ele e ele olha para mim.
Somos felizes assim.
Mesmo que eu não tenha, como alguns cães que eu vejo, um fato quente vestido contra o frio.
Eu tenho o melhor fato do Mundo inteiro: O amor do ZE MARIA, o 47, e o seu sobretudo cinzento.
(Esta dele ser o 47 é que nunca percebi muito bem. Mas ainda um dia hei-de saber).

Bem, agora vou andar mais um bocado por aí, com o meu dono amigo, o ZE MARIA, o 47.
Temos todas as ruas da cidade por percorrer e temos que as ver todas, todas, antes de chegar a tal noite de Natal. Que, dizem que é de amor.
É ?
Não sei.Adeus.E...Bom e Feliz Natal !!!!!


Conto inédito de : AHV ESGAIO FAP551/67
Comissão em Angola: 69/71
Conto de minha autoria, dedicado a todos os Ex Combatentes da Guerra do Ultramar.
Conto a editar em livro, um dia.