segunda-feira, 18 de abril de 2011

LESTE DE ANGOLA - 19

  Memórias de um passado saudoso

DE ANGOLA A MOÇAMBIQUE – JUNHO de 1973


1973 – finais de Junho, princípios de Julho – Pequena estadia na Beira

     Instalado no Edifício Bucelar, no centro da Beira, e na ânsia de conhecer a cidade, logo percorri os locais mais bonitos da década de 70. Da moderníssima Estação de Caminho de Ferro até ao afamado “Moulin Rouge”, passando pela Praça onde se situava a Estátua de Caldas Xavier, visitei a Catedral, a Mesquita, e finalizei o percurso vagueando pelas avenidas arborizadas de frondosos cajueiros.
     De ambos os lados das ruas avistavam-se diversas casas comerciais tipicamente ornamentadas à moda oriental, (chinesas, paquistanesas, indianas) e outras, africanas com carisma muçulmano. Nomes como “Oman”, “Check” e tantos outros, surgiam a cada canto para identificarem as múltiplas nacionalidades. Mundo diferente voltado para o Oriente - novidade e encanto por conhecer!




     À noite, após um apaziguamento paisagístico, assento em contactar com uma correspondente mista de “grego-africana”, ligação ainda conseguida nas minhas vivências por Angola.
     “Mista grega” - era assim o que caracterizava a minha amiguinha Ana Paula, filha de pai grego e de mãe moçambicana.
     Feita a apresentação, seguiu-se uma manhã imediata com passeio pela praia do Macuti, a mais conhecida e chique da zona Beirense 
Estatelados ao sol, junto ao farol e a um velho navio encalhado, muita conversa rolou… De manhã, voltados para o mar e para o sol pois, vivia-se na parte oriental de África, tentávamos perscrutar a grande ilha de Madagáscar, algures escondida no horizonte da curvatura da Terra. Quatrocentos quilómetros de distância marcavam a diferença e apenas ficava a lembrança daquele mar percorrido, em tempos gloriosos, por naus portuguesas a caminho da velha Índia e sob o efeito das Monções.. Nestes mesmos mares, e com acontecimento bem mais recente, relatou-me a minha nova companheira de que uma naufraga Sul-africana que velava pela costa, esteve para ser atacada por um “contingente” de tubarões. 

Dada já como perdida, eis que uns amigáveis golfinhos fizeram tudo para a proteger. Afastaram os tubarões, e com trombadas meigas, arrastaram a sobrevivente para terra colocando-a a salvo e a bom porto.
  Foi notícia em Angola, antes da minha partida.
     Pela costa moçambicana corre a corrente quente de Mombaça, e em toda a linha oriental de África, migram os terríveis tubarões de variadas espécies, principalmente o tubarão tigre. Nos mesmos mares, e em zonas específicas, abundam numerosos golfinhos que lutam ferozmente contra estes tubarões a fim de protegerem os seus territórios. Daí, a razão do milagroso salvamento…
     Continuando pela praia, os nossos banhos tinham que ser de baixa altitude. Nunca se devia fiar no atrevimento de algum bicho marítimo. O mar apresentava-se barrento devido à movimentação das águas turbulentas e lodosas do rio Pungué, que se estatelavam no oceano à beira da capital de Sofala. Praias de grande extensão, e por todas elas, viam-se rodesianos a praticarem a pesca duma forma inédita. Utilizavam a cana porém, o fio, após lançado ao mar, tinha uma ligação a um papagaio de papel dirigido pelo pescador. Com o encurtamento ou afastamento do papagaio, assim se dava ou retirava o lastro à linha do anzol, orientando a melhor zona de pesca.
     De correspondente, passámos a amigos, e de amigos, continuámos a sê-lo…

     À noitinha, por combinação com velhos amigos da Força Aérea, controladores por especialidade (Vassalo e Alves Ferreira), fomos tomar umas bebidas ao conhecido Bar da “Mexicana”. Nesta ocasião, o Vassalo, ferrenho caçador, convidou-me para uma caçada no Parque da Gorongosa. Tudo isto, para o dia seguinte a às primeiras horas do dia.
     Ao raiar do sol, a nossa equipa já se encontrava em marcha em direcção ao Parque de safaris de Chitengo, na Gorongosa. Eu, partia como mirone – mero espectador.


     Já tinha falhado a um espectáculo semelhante, por ocasião da minha viagem nos confins do Cunene, a Sul de Sá da Bandeira e nos limites da fronteira com a Namíbia. Agora, tinha que assistir a uma bela caçada, quer de elefantes ou, de outro animal possante que fosse.
     De Chitengo, seguimos para a picada da Urema, ao longo do rio com o mesmo nome. Procurámos vestígios da presença de elefantes em áreas com ervas altas ou acácias amarelas. As ervas altas pisadas e os ramos e troncos de acácia amarelas partidos indicavam-nos a passagem de elefantes por esta zona.
     Pista encontrada, seguimos o trilho com a cautela devida. Na perseguição à manada, favorecia-nos a direcção contrária do vento, e assim a aproximação aos paquidermes ficava resguardada de maiores perigos.


     De repente, surge-nos a pouca distância, uma manada de possantes e belos elefantes. Mamíferos com cerca de três metros de altura e com número idêntico de toneladas de peso. A matriarca seguia à frente logo seguida de vários descendentes e as suas crias. Era dum real encanto ver esta cena ao vivo porém, para quem não estivesse habituado, sentia-se um certo temor.
     Os caçadores mais experientes colocaram-se em posição de tiro. Outros, em combinação, estavam em postos secundários e, eu, distanciado e em local seguro, assistia ao espectáculo da caça.
     Disparou-se o primeiro tiro, e outros se seguiram. Abate-se o corpulento mamífero, assiste-se a uma cena rara, mas que de belo só permaneceu a paisagem. Morria um nobre animal…
     Tinha saciado a curiosidade e fiquei entristecido com a agonia do lindo descendente de mamutes. Não voltaria à mesma observação pois, o marfim não justificava o acto praticado.


     Já noite, regressámos à Beira. Picada, sobre picada, asfalto, sons de selva tenebrosos, escuridão e luar, tempo abafado, excitação, e eis-nos na camaradagem entre conversas e copos. Nos rumores transmitidos, soubemos que nas montanhas da Gorongosa, mais a Norte, e num safari, tinha falecido o cirurgião do Generalíssimo Franco. Fora morto num ataque de surpresa pelos nossos inimigos à época. A guerrilha aproximava-se da cidade, e nós estivemos próximos de maior perigo que não fossem os elefantes e outros tipos de bestas.
     Movimentaram-se os “Fiat´s” de Tete para esta zona com bombardeamentos diversos. 
     Apaziguou-se a situação. 
     Enfim, outro dia despontava, outro rumo deveria seguir. Da Beira a Lourenço Marques era um pulo de avião. A viagem estava marcada e será discutida na crónica seguinte.

Até breve
Vitor Oliveira OPCART

domingo, 20 de março de 2011

LESTE DE ANGOLA - 18

Memórias de um passado saudoso
DE ANGOLA A MOÇAMBIQUE – JUNHO de 1973

   1973 – 29 de Junho, 6ª-feira, 1º. dia de viagem por terras de África

    Estou de abalada. Inquieto, aguardo com ansiedade a partida de Henrique de Carvalho para Luanda.
     Passam-se longos minutos e todos os passageiros se interrogam pela espera que têm feito. O “Nord Atlas” mantinha-se na placa de estacionamento e, a tripulação aguardava com expectativa os colegas que estavam para chegar do Luso. Tratava-se de alguns especialistas que deveriam seguir para a Metrópole a fim de frequentarem o curso de Furriéis. Do Luso, tomavam o “Nord” em Saurimo, e de Luanda rumariam ao “puto”.
     Assim, iniciava o meu voo ao escurecer, contrariamente ao que era usual neste avião de Sexta-feira.
     Na rota, tantas vezes viajada por mim, avistei as queimadas africanas. Agora, na escuridão, a paisagem surgia no seu esplendor. Esta imagem ficou-me gravada na memória -- não fosse ter visto com frequência os quadros a óleo vendidos junto à marginal de Luanda. África a arder!
     Na capital, o que fazíamos normalmente?
     Passear, sobretudo pelas avenidas mais movimentadas. Marginal, Portugália, Mutamba, Polo Norte, cervejaria Biker, Maria da Fonte, Mercado, edifício da Cuca, avenida dos Combatentes, e se continuássemos por esta avenida, embicávamos nos lugares super conhecidos do Marçal e do Bairro Popular. 
Aliás, todas as estradas se direccionavam para estes aprazíveis locais! 
Queimadas e rios na rota de Saurimo
   Nesta altura, mas desta vez fora destas “paragens”, acompanhava-me o sargento Prates.  
     Nunca se andava sozinho. No buliço citadino, o colega marcava presença para se beber, conversar, ir ao cinema “Império”, dar um passeio pela Ilha e subir até ao sétimo andar, finalizando a “parada” na esplanada da Messe dos sargentos. Camarão e cerveja – não faltavam.
     Porém, o meu destino não era Luanda. Esta cidade era simplesmente mais um ponto de passagem para os lugares mais longínquos que se avizinhavam e, como tal, teria que dar seguimento ao meu propósito. Dirigi-me à “Região Aérea” para marcar passagem no avião militar para Moçambique. Aproveitei esta deslocação para fazer umas compras no “D.B.I.” e fui ao Banco de Crédito cambiar escudos angolanos por moçambicanos -- câmbio favorável que me facilitou as despesas no Índico… 

      À noite, conjuntamente com o 1º. Sargento Guerreiro, vivemos o bailarico até às tantas, numa daquelas noites de bom calor… noite tropical.
Av. dos Combatentes e Marginal de Luanda
    Já no Domingo, 1 de Julho, levanto-me cedinho para apanhar o “Boeing-707” da FAP, com destino à Beira. No aeroporto de Luanda, o meu peito enchia-se de ar. Na minha mente, palpitava a aventura. Cruzar África e chegar ao Índico, era um sonho!
     Mais uma delonga, mais uma partida e, esta, forçada. Após meia hora de voo, já em céus de Cuando-Cubango, eis que algo nos dita o regresso, e o regresso à Base. Houve uma fuga de pressão, e a carga mal distribuída no interior da aeronave fizeram com que voltássemos à origem, para a devida reparação. E, antes isso!...
     A viagem estava a começar mal, mas eu estava entregue à fantástica FAP e, todos os problemas fossem aquele. Deslocámos e seguimos o caminho aéreo que se prolongaria por mais três horas e quarenta e cinco minutos.
     O interior do avião encontrava-se completamente desmiolado. Meia dúzia de assentos na parte da frente, e uma pequena carga na traseira. Em quase toda a extensão do avião havia um vácuo, e para o ocupar, um catraio jogava à bola como se tratasse dum campo de futebol. Giro, imaginar um entretenimento semelhante a cerca de dez mil metros de altitude!
     Eu comecei por assistir aos chutos do petiz, mas acabei por entrar na jogatina -- não deixando de mirar as paisagens do centro africano. A região pantanosa do Zambeze, as intermináveis migrações dos gnus – quais manchas escuras em fila indiana a percorrerem aquela vasta savana rumo ao Norte. Partes desérticas do Botswana, cataratas da Rainha Vitória, a cidade do Bolawaio na ex-Rodésia e, por fim, a fronteira Moçambicana com as suas montanhas de Manica a demarcarem a divisão territorial.
     Percorri toda a intersecção do mal afamado “Mapa cor de rosa”. Agora, encontrava-me na segunda maior Província Portuguesa, e de Sofala à Beira, era um pulo.
Cataratas da rainha Vitória  ex-Rodésia
     Da Base (B.A. 10) à messe percorriam-se treze quilómetros, e ao atravessar a segunda maior cidade moçambicana, fiquei com outro tipo de impressão. Povos de diferentes raças (muçulmanos, paquistaneses, chineses, indianos) todos com vestuários e pinturas características. Olhos rasgados, corações vermelhos na testa, sinais cor do ouro junto ao nariz, veste até aos pés, cabelos pretos retintos, longos e lisos. Tudo, para a época, marcava uma real diferença pois, o hábito de ver tais costumes era raríssimo na nossa “sanzala”.
     Rodesianos, havia-os por todos os lados, e para meu espanto, todo o mundo conduzia pelo lado contrário, tipo inglês.
     Bem, obriguei-me a estacionar por esta maravilhosa capital, detentora do “Moulin Rouge”.
     Por aqui fiquei mais uns dias para regularizar a minha estadia e apresentar-me às autoridades militares. Havia que assegurar as outras viagens pelo interior da Província e marcar o regresso a Angola.
     O percurso terrestre estava delineado porém, no próprio terreno, teria que rever a rota.
     Moçambique era mais belicoso, as estradas nem sempre estavam livres de armadilhas, o Norte era ameaçador, a Gorongosa tinha sido atacada há dias atrás. O perigo chamava a atenção para o necessário acautelamento. Viajar sozinho, à boleia, em território em guerra — era duro.  Havia necessidade de perscrutar os nossos conterrâneos mais velhinhos!
Beira com as suas tradicionais praças


Até breve
O amigo Vitor Oliveira Opcart







quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

LESTE DE ANGOLA - 17



Memórias de um passado saudoso
DE ANGOLA A MOÇAMBIQUE – JUNHO de 1973

Nesta data, somo vinte e três meses de comissão no Leste de Angola e encontro-me com 24 anos de idade. É assim que começa o meu roteiro que descreve a minha atribulada viagem a Moçambique, ainda como militar.


      Mas antes de partir, quero fazer uma descrição de alguns preparativos que antecederam a viagem inaugural.
       Recordo que, para aguentar por estas paragens, sempre tentei arranjar distracções diversas e aproveitá-las da melhor forma enquanto me  obrigavam a esta estadia em terras africanas.
      Depois de uma volta pelo périplo Angolano, deparo-me com a intenção de atingir a Costa Índica e, para isso, seria necessário preparar cuidadosamente uma viagem de maior envergadura.

       Inicialmente, pensei em fazer o percurso via terrestre atravessando o Sul de Angola, caminhando pela Namíbia, África do Sul, e chegar a Lourenço Marques – hoje, Maputo. Em Moçambique, delinearia nova rota por todo esse vasto território.  

PALÁCIO DO GOVERNO DA LUNDA
   Esta aventura continha algo de incerto e perigoso pois, seriam milhares de quilómetros a percorrer por Províncias turbulentas e por países estrangeiros. Necessitaria de três meses de férias e, um Passaporte dificílimo de conseguir – para a época em questão.

     Haveria de começar por algum lado, e para iniciar este acontecimento, começo por dirigir-me ao Palácio do Governo Civil da Lunda para requerer o quase impossível Passaporte. Após alguns dias de espera e expectativa, sou informado na Base, por um colega graduado, de que me deveria apresentar para uma entrevista com um delegado da D.G.S., no café do Hotel “Pereira, Rodrigues”. Isto, no centro da cidade de Saurimo.
     Na altura, suponho que o nosso companheiro Álvaro de Jesus já trabalhava como civil, sendo operador de comunicações para este tipo de serviços, e serenou-me os meus receios…
     Docilmente entrevistado por um funcionário dito amigo “dos FAP”, eis que me é passado o passaporte em Abril de 1973, e curiosamente, com declaração de validade para todos os países com os quais  Portugal mantinha relações diplomáticas.

DELEGACIA DE SAÚDE DE SAURIMO
Em complementariedade ao passaporte, seria necessário actualizar as vacinas e, para tal, desloquei-me à Delegação de Saúde de Saurimo a fim de tomar as devidas precauções. África era o continente das malárias, febres amarelas, paludismo, cóleras, e algo mais de maleitas indesejáveis…

     Ainda faltava algo mais de difícil concretização! Os três meses de ausência e, esses, não fui capaz de conseguir!...
     África do Sul com a sua maravilhosa cidade do Cabo, ficaria para outra altura da vida. O Cabo da Boa Esperança, tão desejado por conhecer, teria que aguardar por muitos mais anos…
     Que fazer?
      Traçar uma só rota Moçambicana e, daí, partir para o desconhecido. Seguir-se-iam sete voos, e o palmilhar de cinco mil quilómetros terrestres e, mais uma vez, de mochila ás costas, sozinho --  assim continuo por esse mundo fora…
     Estudo a Província, demarco os variados destinos com passagem por Lourenço Marques, Vila Luísa, João Belo, Inhambane, Vilanculos, Inchope, Gorongosa, Inhaminga, Marromeu, Quelimane, Pebane, Moma, António Enes, Ilha de Moçambique, Nacala, Nampula, regresso a Quelimane, e continuo por Vila Pery, Vila Manica e Beira.
      Reforço certos locais de visita, tais como: Reserva de elefantes no Maputo, grutas rupestres de Manica, catedral, museu, fortaleza e mesquita de Lourenço Marques, reserva de hipopótamos de Vila Luisa, praias de Tofo e Inhambane, parque da Gorongosa, reserva de búfalos em Marromeu, e fortaleza e mesquita na Ilha de Moçambique.
      Relembro-me que o colega Sachetti me tinha emprestado uma camisola vermelha “Lacoste”, e outro companheiro, cedeu-me um boné plastificado – também ele, de vermelho.
      Recordo que o Sargento Guerreiro me solicitou que levasse uma prenda para o sogro, estacionado na fronteira da Rodésia. Abordo esta passagem porque, terá interesse para uma narrativa futura. A minha intenção seria passar por Vila Manica, e coincidia com a localidade onde vivia este sertanejo…
      Com viagens programadas de avião, concedidas pela Força Aérea, autorizadas de momento – meto foquetes para iniciar a minha segunda aventura africana. Estávamos a 29 de Junho de 1973. Era numa 6ª. feira. O Nord Atlas, teimoso em partir, aguardava o arranque dos motores…
BRRUMMMM…. BRRUUUUMMMM….
Até Breve
O Amigo Vítor Oliveira – OCART




                            


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

LESTE DE ANGOLA - 16

Memórias de um passado saudoso


1972 – 20 de Dezembro, 4ª-feira, 28º. dia de viagem por terras de Angola

Benguela – Mais uma vez de boleia, inicio uma longa viagem por terras de Angola. Parto numa carrinha “Peugeot”, e sigo para o Lobito. Aqui, por indicação simpática e amigável duma jovem estudante, sou dirigido para o melhor local de “apanha boleia”.
Rumo ao Norte, num “NSU”, tentando chegar a todo o custo a Novo Redondo, (Sumbe), mas este tipo de viatura, frágil por sistema, não era o mais apropriado para percorrer grandes distâncias e sob as temperaturas africanas… Daí, a sua avaria mesmo na etapa final que, por sorte, acabámos por ser rebocados até à cidade, por um camião.
Esta povoação, embora sendo a capital do Cuanza Sul, pareceu-me à época, como que um pequeno aglomerado de casario. Centro piscatório, com algumas avenidas ainda por asfaltar, deparou-se-me inferior à grandeza das outras cidades Angolanas. Assim, não me demorei na visita, e num “Jeep”, desloco-me para a próxima cidade onde pretendia visitar mais uma das minhas correspondentes.

Mercado
No percurso para Gabela, avistei as graciosas cascatas do rio Quiéve, plantações de bananeiras, algodão de regadio, café, palmeiras, cactos e embondeiros.
Chegado a Gabela, percorri a mesma sem grandes demoras pois, para minha tristeza, não tive a sorte de me encontrar com a desejada cicerone. Nesta, como noutras situações, quando a saudade me batia à porta, recorria às imagens de algum filme projectado nos Cineteatros afamados da localidade. Cinema, Banco de Angola, Mercado, Rádio Clube, Igreja – eram como que pontos de principal referência dos aglomerados urbanos, cidades que correspondiam a pequenas vilas de Portugal.
Cascata do rio Quiéve
Sem animação, faço-me à estrada e apanho mais uma das dezenas de boleias já conseguidas. Num camião, conduzido por um afável negro, palmilho mais uns quilómetros. Pelo caminho, almocei num daqueles entrepostos rodoviários situados entre Quibala e o Dondo – vilas por mim visitadas no início da minha viagem. Quibala, pelo célebre cemitério indígena, mito de muitas lendas e, o Dondo, famoso pela barragem de Cambambe – a maior de Angola.
Desta barragem, derivava um canal comprido carregado de água, cuja velocidade de caudal atingia os trezentos quilómetros à hora. De enorme declive, passava por turbinas e despenhava-se num precipício, reencontrando o rio Cuanza espraiado e mais calmo na sua longa planície que o transportava até ao mar, junto a Luanda – Barra do Cuanza.
No fundo da ravina onde o maralhal das águas se entrechocava, fixavam-se os crocodilos ávidos das suas presas já mortas. Aqui, a busca de alimento era fácil de obter. A força e o despenhar das águas ajudava a manter a fauna.
Pela importância estratégica, esta barragem era protegida por militares do exército, e foi o seu capitão que se prontificou a percorrer todo o circuito para me fazer compreender a grandeza de semelhante obra.
Seguindo os morros encurvados da serra – os morros de Salazar, tento chegar e alojar-me no “My Friend”, uma das residências de N´Dalatando. Era esta a residência que mais frequentava aquando das minhas visitas à cidade para namorar a cachopa Angolana. Na altura, fazia dois mil e quinhentos quilómetros por três dias de estadia, e a viagem era feita num “Nord-Atlas” barulhento e num comboio, tipo cobra. Henrique de Carvalho, Luanda, Salazar, Luanda, Henrique de Carvalho.
Já na sexta-feira, de manhã cedo, arranco para Malanje. Mais uma viatura de transporte, “Diane-6”, mais umas largas dezenas de quilómetros e, eis-me na grande e antiga cidade. Esta, foi a que deu guarida ao célebre explorador Henrique de Carvalho, ao famoso “Zé do Telhado”, cuja sepultura ainda era venerada pelos indígenas locais, e ao conhecido Padre Américo.
Sempre em movimento, percorri grande parte das avenidas, jardim, e revi alguns locais por mim já visitados numa outra deslocação que tinha feito por ocasião duns exames a disciplinas do sétimo ano. Aproveitei para visitar plantações de girassol, tabaco e sisal, e não me alongando muito por estas paragens, regresso a Salazar, na ânsia de me reencontrar com a minha correspondente número um, e seus familiares.
Estávamos nas vésperas de Natal, e a época era para confraternização.
Cambambe
Bipartido em ficar em Salazar ou, viajar para Luanda – optei por reaver o meu amigo Zé Soares, na capital – a Luanda dos nossos sonhos…
Dia 24 de Dezembro, deparo-me com o “Bacalhau”, e com grandes abraços, festejámos o encontro e contámos o recheio de aventuras. Estávamos na Ilha - local por todos nós conhecido.
Já no “Pó-pó” da tia, combinámos passar a quadra festiva em casa dos seus familiares – recordação que recentemente despoletámos e que ainda lembramos com imensa saudade.
No presente momento, (quadra natalícia), perfazem-se trinta e oito anos após o Natal de 1972, passado em Luanda. Nessa altura, éramos dois jovens entusiastas e aventureiros… Agora… eu, pelo “Putezito” – ele, nos “Brazuca”, no seio da família que nos acolheu. Somos mais velhos…
Por aqui me fico nesta viagem que durou trinta e dois dias, alguns dos quais passados na Capital buliçosa.
Deixo-vos com uma fotografia conseguida na esplanada do sexto andar da Messe dos Sargentos, situada na Avenida dos Combatentes.
Nesse tempo… era assim a Avenida, com os seus carros, prédios – um cheirinho a preto e branco! Uma direcção para os bairros do Marçal e B.O.. Lembram-se?
Luanda, de outrora -- qual a comparação?!
O Majestoso Embondeiro
Até Breve
O Amigo Vítor Oliveira – OCART

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

LESTE DE ANGOLA - 15

Memórias de um passado saudoso

1972 – 16 de Dezembro, Sábado, 24º. dia de viagem por terras de Angola

Sá da Bandeira, Lubango – de madrugada, sempre para aproveitar o máximo de tempo, encaminho-me para a extremidade Norte da cidade a fim de me colocar na posição estratégica para pedir boleia.
Benguela seria o meu destino imediato – a cidade jardim Angolana.
De princípio, sou transportado num “jeep” até à povoação de Cacula, e seguidamente na companhia de dois estudantes, também eles à boleia, continuámos num “citroen” tipo “boca de sapo”.
No percurso, avistei imensas plantações de sisal nos arredores de Quilengues, que mais pareciam piteiras. O pastoreio era rico nesta região, e os bois e cabras atravessavam frequentemente a estrada.
Após muitos quilómetros percorridos, eis que chego ao destino traçado – Benguela. Eram 14:00 h e, pé ante pé, caminhava para o centro da cidade com o carrego da minha mochila e máquinas fotográficas ao ombro.
Em todas as paragens anteriores fui sempre surpreendido por pessoas simpáticas que se ofereciam para me apoiarem e, nesta ocasião, mais uma vez fui bafejado. Sem contar, parou pertinho de mim um sujeito que me interrogou desejando saber o que me levava àquela cidade.
Sabendo do meu itinerário, aventura, descoberta por terras Angolanas, logo se predispôs em me auxiliar no que pudesse. Assim, levou-me no seu “volkswagen” preto, tipo “carocha” e colocou-me no Hotel Residencial de Benguela - alojamento acessível para a minha bolsa, à época.
Por volta da meia tarde palmilhei a cidade, telefonei à minha correspondente Nady e, sem contar, o sujeito que me tinha levado ao Hotel, esperava por mim para me servir de cicerone. Era o Sr. Alonso, numa outra viatura (peugeot 504). Desejava mostrar-me a cidade e arredores. Era contabilista e, pelo que soube mais tarde, a sogra era a que chefiava a Cruz Vermelha na cidade jardim.
Mostrou-me toda a cidade, aeroporto, arredores, e pelo que vi, sendo a cidade pequena – era muito ajardinada e bem cuidada. Outrora, tinha sido uma das principais cidades Angolanas com o porto mais desenvolvido onde se transaccionaram milhares de escravos para S. Tomé e paragens do Continente Americano.
Acabámos por jantar uma sardinhada típica num Bar conhecido, conjuntamente com outro colega seu e, mais tarde ainda, terminámos o convívio desse dia, num Bar americano chamado a “Toca”.
Em pouco tempo tinha feito amigos. Foi instantâneo!
À época, o local, a vivência cruzada destes “items”, determinavam este tipo de convivência sadia e imediata.
No dia seguinte, mais uma vez se apresentou o Sr. Alonso para me servir de guia com a finalidade de me permitir conhecer toda a beleza da cidade. Fomos à Estufa Fria e, à tardinha, na companhia da sua família, seguimos à descoberta dos encantos dos lugares de Caota, Caotinha, Baía Farta, Baía Azul, Farol do Sombreiro e, tantos outros… Pela orla marítima de Angola, esta, foi a mais espectacular que observei.
As encostas apresentavam-se semi-desérticas. Como vegetação, apenas se avistava o cacto, a espinheira, o capim levíssimo e o gado…macilento.

Mulher de Cacula
 

BENGUELA – PALÁCIO DO GOVERNO
No fundo, as baías espraiavam-se naquele mar calmo e dum azul escuro. Água tépida, fundos marinhos de rara beleza, sem multidões por perto. Aqui, a Natureza era soberana.
Tomámos um banho de longas horas num mar morno e dócil até que o pôr de sol se fixou no horizonte. Era uma praia Africana na costa Ocidental e no Atlântico Sul.
À noitinha, fomos jantar a um Bar situado na Baía Farta a cinco quilómetros da Caotinha, onde me foi apresentado mais um angolano de raiz. Trabalhador na Companhia Açucareira “Tentativa”, no Dombe. Este, Sá Guimarães, era um excelentíssimo equitador, pai de um piloto, nosso colega. Nestas paragens, o meu amigo era o amigo do outro amigo e, todos compartilhavam uma amizade intrínseca sem delongas.
De volta à cidade, continuámos em direcção ao Lobito, cidade próxima e quase geminada. Era intenção do amigo Alonso mostrar a iluminação Natalícia.
Passámos pela Restinga, Farol e, tratámos de ver a parte Alta do Lobito – Boavista.
Dia memorável de viagem e de acompanhamento – beleza paisagística e humana.
A altas horas da noite ainda tivemos apetite para saborear uma rica sopa de camarão seguida de omeleta do mesmo marisco. Tudo isto no melhor Restaurante Benguelense e ás custas do meu guia.

BENGUELA – LARGO TEÓFILO BRAGA
Continuo em Benguela pois, o mínimo de visita por cada cidade, estipulava-se em três dias.
De manhã segui para a cidade do Lobito numa outra boleia do Sr. Alonso. Mais uma vez alarguei os meus conhecimentos pela cidade percorrendo a área do Mercado, Porto, Restinga, visualizando as centenas de flamingos que pairavam junto ao Cabo, ás Salinas e Canal de escoamento duma das vias citadinas – única mancha denegrida.
De regresso a Benguela num “Renault 4 L” e na companhia dum ex-colega da FAP, dirigi-me aos CTT para enviar os cartões de Boas-Festas. Estávamos a 19/12/1972 e, mais do que noutras alturas do ano, esta, apelava à saudade.
Retorno à praia da cidade, e num daqueles momentos de contemplação pelo infinito do mar, sou despertado pelo chamamento familiar do Zé, aquele que conhecemos por ser alcunhado de “o bacalhau”.
Os diversos reencontros que tivemos nestas paragens davam sempre muito que contar… Bipartidos, tínhamos aventuras diversas com conteúdos recheados e ávidos por escutar…
Passei a tarde com a minha correspondente, professora nesta localidade. Excelentíssima moça que muito desejaria de tornar a ver – Nady Areias.
À noite, saiu paródia com o Zé e seus familiares – a família Conde.
Ao transpor “estes meus roteiros” para o Blogue, vivo uma segunda época de aventuras porém, com pormenores de segunda monta e mais tardios. O tal Sr. Alonso, pessoa simpática até dizer basta – já faleceu! E o local por nós visitado, sem a pessoa desejada à nossa espera, não tem, e não teria o mesmo sabor e alegria – mesmo que lá voltásse agora.
Se visitasse Saurimo, vendo casas – não veria a animação humana da época. Sentir-me-ia triste e deslocado… era um querer sem o desejar querer. Tive essa experiência quando retornei a Angola após comissão feita, em Maio de 1975!...

LOBITO – PORTAS DO MAR

Nesta altura e por estas paragens encontra-se o nosso amigo EMÍDIO J. S. BAPTISTA – EABT 1973/75 – no Lobito, Hotel Tropicana.
Quão bom seria se ele nos relatasse as suas vivências no Lobito. Seus afazeres, evolução da cidade, perspectivas, opinião. Seria mais um parágrafo a repor no meu longínquo roteiro – agora, para ficar actualizado.

Até Breve
O Amigo Vítor Oliveira – OCART




domingo, 17 de outubro de 2010

LESTE DE ANGOLA - 14

Memórias de um passado saudoso

1972 – 08 de Dezembro, Sexta-feira, 16º. dia de viagem por terras do Sul de Angola

Localizo-me em Porto Alexandre (Tombwa), pequena cidade costeira situada nos confins de Angola e, em pleno deserto da Namíbia.
À minha espera, na praia, estava a minha correspondente Lídia  que me reconheceu facilmente pois, naquela paragem, todos se conheciam, e quem fosse estranho – era sempre o esperado!...
Passámos o dia maravilhosamente bem porquanto, o tempo seria curto.
Travou-se uma amizade extensa e aproveitámos tudo o que se nos deparava em ser agradável.
Relembro que foi  nesta cidade que encontrei uma das raparigas mais bonitas que até ao momento se cruzou comigo. A par desta situação, equiparei outra altura idêntica na povoação de S. Sebastião, na Ilha Terceira, Açores.
Onde estarão estas cachopas, após tantos anos de separação?!…
Três dias  me mantiveram por estas paragens. Gozou-se o que se tinha para gozar e, contrariamente à minha intenção de me deslocar até à Baía dos Tigres, rumei a Sá da Bandeira passando por Moçamedes, novamente.
Deixo um amor – parto para o reencontro de outros…
MUILAS NA ALDEIA
De regresso, apanho uma boleia dum casal algarvio que por aquelas terras habitavam. Pescadores na sua essência.
Em posição de pedir boleia, pela segunda vez em Moçâmedes, choco-me com um camionista que já me tinha transportado noutras paragens angolanas. Sigo até à povoação  de Caracul e finalizo a etapa na lindíssima cidade do Lubango,  a tal que sempre me encantou!
Separado do Zé há vários dias, revejo-o nesta cidade no ponto previamente combinado - a Pensão Dória. Aqui, retomámos os nossos namoros anteriores.
A cidade apresentava-se “charmosa” com a iluminação natalícia e, nesse dia, meti uma folga à minha Nelinha, redundando até à povoação de João de Almeida (Chibia), mais a Sul, no Cunene. Fui ao encontro de outra correspondente, a Linita. Mulata escorregadia que já se tinha mudado para Luanda na procura de emprego.
Estava escrito que Sá da Bandeira seria o meu “lar” verdadeiro. Os amores desta cidade aguardavam por mim e, o Zé, preparou o campo de acção. Nelinha e Mariazinha voltaram em força ao namoro, e mais arrebatadoras do que da última vez. Não admira… éramos os pretensos pilotos da FAP. A mentira dava mais enlace…
Tinha abandonado a minha outra correspondente, a dócil Ilisa. Era menos obediente…
Esta cidade deu-nos muitos namoros e presenteou-nos com grandiosas paisagens, (Fendas da Tundavala e do Bimbe, Serras da Chela e da Leba). Terra de bom clima e acolhedora. Há muitos anos fundada  por Madeirenses, razão do acolhimento sadio.
SÁ DA BANDEIRA – PRAÇA DOS FUNDADORES
MUILA COM A ZORRA

Com todos estes dias já passados, encontramo-nos a 16 de Dezembro, Sábado, e será o 24º. dia de férias e de viagem que tratarei de narrar na próxima memória.
Trinta e oito anos passados, é tempo. Tempo de boas recordações!...
Os momentos encantadores dessa época viril estão escritos e nunca esquecerão.
Contar outros pormenores de história – seria bom para  os que me lêem porém, só em segredo. São coisas de sanzala, magia Africana…




          MULHER MUXIMBA

Até Breve
O Amigo Vítor Oliveira – OCART