sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

LESTE DE ANGOLA - 26

“LESTE DE ANGOLA”
Memórias de um passado saudoso
LUANDA – 1971 a 1975
2ª. PARTE – CRÓNICAS DE LUANDA
“…,…Em 27 de Agosto, uma semana após ter pisado solo angolano, parti para Henrique de Carvalho. Desta feita, tomei a célebre aeronave de cognome “Barriga de Ginguba”, e num percurso de três horas, cheguei à minha derradeira etapa.
     Será a partir desta data, e por mais trinta e dois meses, que cruzaria os céus entre H. de Carvalho – Luanda - H. de Carvalho, e nestas estadias frequentes, aproveitei conhecer ao máximo a capital e os seus encantadores arredores.
   Neste propósito, relatarei o que vi, para avivar as mentes menos férteis daqueles que por lá passaram, também.

4 – 15/Janeiro/ 1972 –F. Fokker 27 (DTA)-  H. C.-LUANDA – 3 H. de voo

     Poucos dias após ter regressado a H. de Carvalho, voltei a Luanda para realizar as provas orais das cadeiras de História e Filosofia. Parti de boleia num avião pertencente às Linhas Aéreas Civis Angolanas (DTA) e relembro-me do tipo de aeronave – Friendship Fokker – 27, a mais utilizada por esta Companhia, na década de setenta.
     Nesta permanência, aproveitei para visitar e conhecer a Barra do Cuanza, uma das pérolas da natureza angolana.
BARRA DO CUANZA 

   
  Tomando o “Machibombo”, vagueei para o sul da capital numa distância aproximada de setenta e cinco quilómetros, passando pela Fortaleza de S. Miguel, os bairros de Quinanga e Prenda, pela lateral da  ilha do Mussulo, Morro da Cruz, Ramiros, Palmeirinha, Miradouro da Lua, e finalmente o encontro com o rio Cuanza.


A Barra do Cuanza é o local da foz do rio com o mesmo nome, o maior de Angola e que demarca os limites das Províncias de Luanda e do Bengo.
     Extensão privilegiada pela natureza, dum cenário irreal, com praias fluviais e marítimas quase selvagens, escoadouro de águas mil, propícias à pesca. Serve de entrada para o Parque Nacional da Quissama.
Só com a observação paisagística é que poderemos captar e dar valor a todo o encanto desta magnífica região, não obstante, ofereço aqui algumas imagens. 
5 – 04/Maio/ 1972 –F. Fokker 27 (DTA)-  H. C.-LUANDA – 2,5 H. de voo

     Maio de 1972, entrava-se na estação do “cacimbo”, considerado o inverno angolano. Mas havia sempre calor!
     Esta deslocação a Luanda foi originada a convite do amigo e companheiro Orlando Rodrigues, o qual se encontrava no Negage a desempenhar a mesma especialidade de controlador. Da minha recruta, do meu curso, da minha companhia por terras açorianas, e agora, após uma curta separação, eis que propusemos reencontrarmo-nos na capital para passarmos um agradável fim-de-semana.
     Para o “picnic”, levámos um belo frango assado e rumámos ao Mussulo a fim de colocarmos a nossa escrita em dia…

ILHA DO MUSSULO 

     Para o sul de Luanda, a dezassete quilómetros e a caminho da Barra do Cuanza, deparava-se-nos mais uma língua de terra distanciada do continente e separada pelo mar. Tratava-se dum banco de areia com cerca de trinta quilómetros de comprimento formado pelos sedimentos trazidos pelo rio Cuanza. Esta restinga do Mussulo abriga a Baía e, no seu interior, três ilhas, sendo a ilha dos Padres a maior e a mais conhecida.
   Nesta Ilha, brincava-se, mergulhava-se, corria-se atrás das gaivotas. O nascer e o pôr-do-sol formavam como que um quadro pintado a óleo de cores douradas.
     À noite, podíamos tomar banho nas águas mornas da Baía, comungando com os cardumes e caranguejos. Era tudo tão natural e selvagem!
     Não havia qualquer viatura a perturbar a tranquilidade da ilha, nem outro barulho que pudesse sensibilizar a natureza. Apenas os pescadores seguiam a sua navegação numa tarefa constante de apanhar o peixe dócil e que nos roçava as pernas.
     Local de descanso e de relaxamento protegido pela sombra de centenas de coqueiros. Extenso areal manchado a ouro e que nos proporcionou um dia inesquecível de lazer. 

6 – 27/Agosto/ 1972 – NORD ATLAS – H. C.- LUANDA – 2,5 H. de voo

     Fazia um ano em que tinha chegado ao Continente Africano. Era quase um veterano de guerra!
     Em Gago Coutinho permanecia um companheiro da minha infância, Arnaldo Ramos – MAEQ, que de vez em quando se deslocava a H. e Carvalho – Sede de acção militar no Leste Angolano. Tive muitas convivências com este conterrâneo mais velho em comissão.
     Nesta data, surge-lhe a tão esperada desmobilização, e com ele, segui no mesmo avião até Luanda. Tomei a honra de o acompanhar, como se eu também fosse o desmobilizado por antecipação.
     Foi neste fim-de-semana, a seguir à despedida deste amigo, que disponibilizei uma tarde para poder visitar mais um lugar de rara beleza, ali nas proximidades de Luanda.

MIRADOURO DA LUA

     De novo, apontando para o Sul e a cerca de quarenta quilómetros, entre a Ilha do Mussulo e a Barra do Cuanza, estaco perante uma das maravilhas naturais desta região. O Miradouro da Lua, conjunto de falésias situadas no Município de Samba.
     Ao longo do tempo, a erosão provocada pelo vento e pela chuva criou um tipo de paisagem lunar. Ponto turístico de paragem obrigatória para quem se dirigisse às praias do Cabo Ledo. 

     Deixo aqui expressos uns versos para vivenciar estas “Sentinelas de Pedra”.

“DO MIRADOURO DA LUA VÊ-SE MAIS QUE O SOL POENTE”



“Lá do alto se pressente 
Que o vento deu forma às sombras
E a multidão de fantasmas
Talhadas em sulcos, na terra
Foi gente arrancada, às levas,
Em ferros que já não sente.

O tempo não desassombra 
O clamor petrificado.

Escravos levados negros
São vultos brancos, dourados, 
Emparedados na terra
Que ansiaram ver de novo.

São guerreiros perfilados,
São rostos desfigurados 
Em temporais e naufrágios,
Retornados a seu porto.

Agora velam as bordas
Agora choram por dentro 
Quase reconciliados:
O mar, os antepassados,
O silêncio, o verde, o vento.”

 Flávia de Queiroz Lima

Até breve
VÍTOR OLIVEIRA - OCART

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

LESTE DE ANGOLA - 25

“LESTE DE ANGOLA”
Memórias de um passado saudoso

LUANDA – 1971 a 1975

     Após uma imensidão de anos, tento afincadamente trazer à memória as minhas vivências passadas naquela que foi a Luanda de outrora.

Releio lenta e saudosamente as anotações que tirei e que ainda permanecem no meu já velhinho baú, e faço ressaltar as datas que indicam com precisão, todos os momentos em que pisei solo Luandense.
Ainda em 1970, encontrava-me na Base das Lajes, onde desenvolvi o meu tirocínio de controlador de aviões. Um dia, nesse longínquo ano, depois de ter terminado o meu turno, e ao percorrer solitariamente o caminho da Torre para a Porta de Armas, avistei uma bandeirinha pregada a meia haste. Tinha morrido Salazar! O sino da vila das Lajes, lá bem no fundo das pistas, gemia com os seus timbres, repuxando-me às lembranças da minha terra natal e … chorei, pelo meu desterro…
Treze meses de isolamento numa pequena ilha de nada – o desmamar dum mancebo a tornar-se homem…
Prostrado no outro lado do mar, saudoso e tristonho, assim vivi até partir para um lugar mais distante ainda, por tempos mais alargados, para um país em guerra a que chamei de Angola. 

1 – 20 de Agosto de 1971 – DC-6 – LISBOA-LUANDA – 20 horas de voo

Assente num banco de lona que se dispunha do nariz à cauda do avião, seguia num DC-6, cargueiro. Do meu lado, apenas tinha acesso a uma pequenina janela voltada para o infinito. Horas e horas, num sussurrar constante, sobrepõem-se as ilhas Canárias, Cabo Verde, tangenciam-se as  fronteiras  do deserto  Sahariano,  em que a tonalidade de amarelo térreo se embrenhava no céu, medito na minha sorte, e surpreso, eis que finalizo o primeiro percurso na cidade de Bissalanca – Bissau – Guiné. 
Aqui, na permanência de uma hora para reabastecimento de combustível, já perspectivo os sabores duma África tropical. Simplesmente medonho!
Seguindo rota por mares fora, tentava idealizar como seria a terra do meu destino, aquela que permaneceria por largos anos – aquela que me afastava de tudo e de todos aqueles a quem muito amava.
Em silêncio, só eu magicava na aventura a que me tinham sacrificado.
Pretenso valentão a que a mocidade e o vigor dessa idade iludiam…
Vinte horas de voo, muitos quilómetros percorridos. A Estrela Polar ao desaparecer nos horizontes, fazia renascer o Cruzeiro do Sul. Parti num verão europeu – cheguei num inverno africano!
O “velhinho” contorna o aeroporto numa “perna base”, toma uma “final longa”, e dá-me tempo para memorizar tudo o que avistava, sentir a minha ansiedade, enfim, toda a convulsão psíquica de momento para, mais tarde poder recordar o turbilhão de impressões. Eu sabia que estas primeiras percepções teriam o seu amadurecimento após as futuras e diversas vivências nesta capital angolana, mas desejava contrastá-las num tempo mais prolongado, nos términos de comissão.

Descia, descia, e já sobre a noitinha precoce, capto as luzinhas citadinas, a marginal reflectida na Baía, os focos andantes dos carros, o reboliço da vida urbana. No chão, à saída da aeronave, aspiro a humidade do ar, tomo-lhe a temperatura, e pelos odores de terra molhada, revejo-me no que viria a conhecer como “cacimbada” africana.
Encontrava-me numa terra desconhecida, terra de pretos, naquela que se dizia ter pertencido a uma Rainha apelidada de N´Gola.

A solidão rodeou-me de perto, e só resisti às lágrimas porque, tive conterrâneos a apoiarem-me na minha chegada. 
Em 27 de Agosto, uma semana após ter pisado solo angolano, parti para Henrique de Carvalho. Desta feita, tomei a célebre aeronave de cognome “Barriga de Ginguba”, e num percurso de três horas, cheguei à minha derradeira etapa.
Será a partir desta data, e por mais trinta e dois meses, que cruzaria os céus entre H. de Carvalho – Luanda - H. de Carvalho, e nestas estadias frequentes, aproveitei conhecer ao máximo a capital e os seus encantadores arredores.
Neste propósito, relatarei o que vi, para avivar as mentes menos férteis daqueles que por lá passaram, também.

2 – 06/ Novembro/ 1971 – NORD ATLAS – H. C.-LUANDA – 3 H. de voo

Pouco tempo antes desta minha partida para Luanda e no propósito de passar um dos muitos e habituais fins-de-semana, combinei um reencontro com um velho amigo de infância (Luís Abreu e Sousa) o qual se encontrava no Norte de Angola em missão militar. Agrupados, eu, ele, e outro companheiro de Vieira do Minho, partimos da cervejaria “Biker”, já bebidos, rumo à Ilha - ex-libris de Luanda
A dois passos, tomando a marginal, Avenida Paulo Dias de Novais, rumo a sul, apontámos como referência o topo da Fortaleza de São Miguel. Aqui, ultrapassando a língua de terra, rodámos à nossa direita e seguimos em frente para percorrermos a Ilha de Luanda ou, a Ilha do Cabo. Isto, por sete quilómetros de comprimento.
     Logo no começo e voltados para a cidade, encontrámos o Clube Náutico, e mais à frente, seria a vez de passarmos pelo Clube Naval de Luanda, antes de encetarmos na avenida Murthala Mohamed, até ao Cais 4.

     


Caminhando pela faixa estreita  da ilha, avistámos o enorme Hotel Panorama, e tanto este hotel, como o Casino Hotel Marinha, eram considerados como marcos paisagísticos na outra orla marítima, principalmente nas belas noites tropicais.Deparámos com a Marina e os seus barcos de recreio, e no final, mesmo na pontinha norte da ilha, inclinámos pelos cento e oitenta graus contornando o célebre farol. Estávamos de regresso numa marcha apaziguada em direcção ao sul. Deste lado voltado a poente tínhamos somente o mar, praias com o resguardo frequente de esporões para darem guarida ao veraneante desejoso de se espraiar.

     


Do Restaurante Bordão,  cruzámos com o Café Del Mar, Caribe, Miami Beach, e retomámos a mesma avenida de Mohamed para darmos termo nos frequentados Restaurantes de Jango Valeiro, Chez Wou, Portugália, Três Plameiras e Praiamar, mas sobretudo no típico bar e Esplanada do Barracuda, lugar de encontro de amigos.
     “A esplanada do Barracuda, a  última antes da ponta da ilha e logo depois da Praia dos Russos, era o corolário de um percurso de catorze quilómetros de praias magníficas, (sete para cada lado) de apelidos sugestivos, imaginativos, folclóricos e algumas vezes mordazes. A esplanada suspendia-se sobre a praia, e abarcava não mais de dezoito a vinte mesas, rijamente disputadas pelos poucos afortunados que podiam pagar absurdamente, até para os padrões Europeus, a eficiência e um serviço de restaurante de qualidade máxima, numa cidade onde à grossa maioria faltava o mínimo. A visão deslumbrante do reflexo do Sol Africano no mar cálido, onde, não raro, se avistavam numerosas famílias de Golfinhos, convidava a mergulhos frequentes ou à contemplação entremeada de conversa fácil. As mais bonitas mulheres de Luanda vinham à Esplanada da Barracuda banhar-se de Sol, preparando a pele para impressionar nas noites da Discoteca do Panorama.”
     Assim escreveu um cibernauta famoso…

De martelinho na mão, quebrávamos as carapaças do marisco, enquanto os nossos pés eram banhados pelas águas do mar. Sentíamos a rega no plano inferior, e com a cerveja bebida, no plano superior.
Retirando os prazeres do Barracuda e as estonteantes praias ainda límpidas na época, poderemos saborear um pouco da história desta “linguiça especada no mar”.
A Ilha de Luanda é formada por uma faixa arenosa constituída pela sedimentação de areias com detritos orgânicos de origem vegetal e animal. Teve enorme importância na recolha do “zimbo”, conchas que serviam de moeda de troca no tempo do rei do Congo, antes da chegada dos portugueses. Foi tomada em 1575 pelo navegador português Paulo Dias de Novais, e tem como referência histórica, a Igreja de Nossa Senhora do Cabo, símbolo mais antigo deste local, terra de pescadores – os  Axiluandas. 

3 – 31/Dezembro/ 1971 – NORD ATLAS – H. C.-LUANDA – 2,5 H. de voo

Passados quatro meses de estadia em Angola, já apertava o sentimento de saudade, e com  a aproximação do Natal e do Fim de Ano, épocas festivas, mais o apelo à tristeza, por não termos presente os familiares, namorada e amigos.
Esta minha deslocação à capital proporcionou-me a Passagem de Ano de 1971, para 1972, juntamente com outros companheiros hospedados no “Hotel” da Força Aérea, na Avenida dos Combatentes.
     
Para além desta especial circunstância, tinha-me proposto a exames escritos no Liceu Salvador Correia de Sá. Essa, a razão dumas mini férias de doze dias em Luanda.
Por tal motivo, tive ocasião de fazer duas visitas significativas na capital:



FORTALEZA DE S. MIGUEL 

Quem não conheceu este monumento histórico situado à entrada da Ilha? Por fora, todos o avistaram porém, poucos foram aqueles que subiram o monte de São Paulo e visualizaram toda a Baía, Ilha, e paisagens que se estendiam para os lados de Mussulo.

     
Recordo ter efectuado uma deslocação a esta Fortaleza num momento ideal para conseguir captar uns “slides” maravilhosos. Um pôr de sol com reflexos dourados espelhados no mar da Ilha, e uma avenida a cobrir-se de vermelhos e amarelos produzidos pelos faróis dos carros na marginal. Fotografei em “pose” para realçar a película…

Esta Fortaleza foi erguida por determinação do primeiro Governador, Paulo Dias de Novais, em 1575, sendo a primeira estrutura defensiva construída em Angola.
Entre 1641 e 1648, esteve no domínio holandês porém, teve a recuperação conseguida por Portugal através duma expedição armada proveniente da capitania do Rio de Janeiro e comandada por Salvador Correia de Sá e Benevides. 
Sob o Governo de Francisco de Távora (1669-1676), a Fortaleza foi reconstruída em alvenaria, ficando concluídos  um baluarte e duas cortinas. Sob o Governo de César Meneses foi erguida, no interior da fortificação, a Casa da Pólvora.

Em 1876 estabeleceu-se o Depósito de Degredos de Angola, nas dependências da Fortaleza.
Em 1938 com a extinção do Depósito dos Degredos, foi classificada como Monumento Nacional, e no ano seguinte, veio a instalar-se nela o Museu de Angola, tendo sido feitas as necessárias obras de adaptação, como a colocação de painéis de azulejos numa casamata com cenas de história de Angola e de exemplares da fauna e flora nativos.
Em 1961 a Fortaleza voltou a assumir funções militares, nela tendo ficado sediado o Comando das Forças Militares Portuguesas.

OBSERVATÓRIO DA MULEMBA de BETTENCOURT FARIA

Em Saurimo, tomei conhecimento da existência de um observatório astronómico criado por um grande Senhor, autodidacta, conhecedor do ofício e prestigiado a nível internacional.
Captei nas entrelinhas dum jornal angolano que teria sido ele a recolher uns destroços duma cápsula pertencente à NASA e que teriam dado à costa nos mares de Angola. Noutras ocasiões, e em circunstâncias especiais de colaboração a nível internacional, soube da sua “participação” num voo que foi realizado pelo célebre Concorde, por alturas dum grandioso eclipse solar, levando a bordo dezenas de cientistas que se fizeram deslocar do Quénia para a outra margem de África, numa movimentação contrária à rotação terrestre, e para melhor estudar o fenómeno.
Pois bem, quem foi este grande Homem conhecido por Bettencourt Faria, e qual a sua obra?

O Centro Espacial da Mulemba, situado a treze quilómetros de Luanda, foi o sonho de um homem que já nasceu génio. Viveu a sua infância na Ilha de S. Miguel e já nesta altura se percebia o seu espírito inventivo. Construiu o seu próprio violino, reparou um aparelho de fisioterapia de seu avô médico, tocava piano, pintava e já fazia pequenas esculturas – tudo isto em criança.
Já em adulto, parte para Angola para trabalhar na Diamang, e a par do seu trabalho, desenvolve o seu “hobby” dedicado à astronomia e biologia marítima. Torna-se tão evoluído que os dirigentes da Refinaria Petrofina, em Luanda, o contrataram para funções altamente especializadas. Entretanto, vai arquitectando a forma de construir um Observatório astronómico naquela região (Mulemba). O Empreendimento teve por finalidade fazer estudos solares, nomeadamente: fotografias integrais diárias; contagem de manchas solares; heliografia; espectrografia, recepção de ondas electromagnéticas; fazer qualquer espécie de astro—fotografia; proceder a estudos de rádio-astronomia e rastreios de satélites artificiais.

Neste último trabalho, Bettencourt Faria foi o único português que registou e fotografou em aparelhagem apropriada os sinais emitidos pelo primeiro SputniK russo. Em todo o Continente Africano foi no seu Observatório que se conseguiu realizar este trabalho.
Segundo palavras do Dr. Fernando de Oliveira, um dos directores do Serviço Internacional da Fundação Gulbenkian, disse: “Era um homem extraordinário, tanto no aspecto humano como na sua qualidade de investigador e cientista”.
Dedicava-se a uma série de actividades que dariam para meia dúzia de sábios.

A NASA chegou a pedir a colaboração do Centro Espacial da Mulemba e a National Environmental Satellite Service, enviou-lhe uma carta em que dizia: “ Com o esquema do seu sistema APT, Bob Popham e Chuck Vermilliou do Centro de Voos Espaciais de GODDARTD/NASA e eu, chegámos à mesma conclusão: você fez um excelente trabalho não obstante as frequentes dificuldades logísticas (de superintendência) que enfrentamos; ficámos particularmente satisfeitos em verificar a sua opção sobre elementos de lógica – usando, o que consideramos ser componentes seguros e comprovados. O seu Governo, tem muita sorte em dispor de alguém tão competente e dedicado como você na investigação tecnológica; AS NOSSAS FELICITAÇÕES”.
Este foi o Homem que em Luanda foi barbaramente assassinado em 1976, vítima da desordem e do caos em que Angola foi lançada.
Um dos seus familiares é meu amigo pessoal, residente na minha cidade, e costumamos recordar este génio da astronomia e de outras ciências. Falamos dele, do seu Observatório na Mulemba e dos gloriosos dias passados em Luanda.
Aposto que muitos dos nossos companheiros da FAP nunca ouviram falar de tal cientista!!!
(Esta é uma das três partes da minha crónica)
Até breve
VÍTOR   OLIVEIRA - OCART

terça-feira, 22 de novembro de 2011

LESTE DE ANGOLA - 24

“LESTE DE ANGOLA”
Memórias de um passado saudoso

NORTE DE ANGOLA – 1973

     Com proveniência da Beira, Moçambique, e de viagem num DC-6 da FAP durante seis horas de voo, eis-me chegado à capital angolana – Luanda.
     Anotava no meu roteiro, a data de 29 de Julho de 1973, meu 32º. dia de férias – DOMINGO.
     Para descongestionar os dias atribulados, passei por alguns momentos de repouso porém, logo pela manhã do dia seguinte, tratei de elaborar os meus planos preparando-me para uma nova fase de aventura. 
     Depois do pequeno-almoço tomado na Messe dos Sargentos, situada na Avª. dos Combatentes, dirigi-me à casa dos tios do José Soares, “o bacalhau”. Tinha tido conhecimento de que o meu grande companheiro de viagem por terras de Angola, em 1972, se encontrava a passar o fim-de-semana na cidade, e desejoso de lhe contar as minhas peripécias destas minhas últimas andanças, tive o propósito do reaver. Encontrado, travámos uma conversa contínua dando início a um passeio citadino que era marcado sempre pela mesma rotina. Fomos ao Casão Militar e demos andamento pela marginal, local aprazível junto às águas do Porto e com vistas para a magnífica Ilha de Luanda. Desde a Fortaleza de S. Miguel até à Estação de Caminho de Ferro, tudo foi palmilhado de forma descontraída e sem cansaço. Era a nossa melhor Avenida, aquela das peculiares palmeiras barradas a branco e que traçavam o limiar das águas do mar. Nela, memorizava-se o gigante “BCA”, o Palácio do Governo, lojas pitorescas, movimento de vai e vem ininterrupto – característico da maior cidade da costa ocidental de África – “a nossa Luanda.”

BANCO DE ANGOLA                                             FORTALEZA DE S. MIGUEL        
     Perpendicularmente à Marginal, tomámos o norte à majestosa Praça da Maria da Fonte, duplamente conhecida pela estátua central, pelo Mercado de Sant`Ana e pelo edifício da “CUCA”. Tínhamos como destino imediato o café “Mónaco”, local frequentado pelos nossos companheiros de armas, ponto de referência para conversas e discussões sobre o porte feminino da época.
     Após o jantar, eu, o Rui Silva (Ocart), José Soares (Eabt) e o Ribeiro Silva (Piloto), fomos tomar o café ao “Everest”, para numa fase quase simultânea seguirmos para o bairro Marçal, e cairmos em “nós” no mesmo “Mónaco” – o café das confidências…
     Tirando as curtas viagens do aeroporto para a cidade e vice-versa, as passagens pela Mutamba, os gelados do Pólo Norte, as cervejas bebidas na Portugália e no Biker, os filmes projectados nos cinemas Miramar, Trópico, Avis, Tivoli, …,… desmaiava-se na rotina de fim de semana na capital contudo, de forma diferente dos afazeres constantes no velho Saurimo.
     Ora, como nunca gostei de estar parado por muito tempo, comecei a pensar em aproveitar os dias de férias que ainda me faltavam gozar. Conhecer outras paragens e gentes angolanas, era a minha determinação, e assim parti para o Norte.
     Na madrugada de Terça-feira apanho um táxi que me levou à Estação de Caminhos de Ferro, lá para os lados do Porto, na extremidade da Marginal Norte. O relógio da Estação marcava as cinco da madrugada, mas o dia já despontava nesta Província africana. O destino pela via ferroviária levar-me-ia à cidade de Salazar, duzentos e cinquenta quilómetros para Leste. A lentidão do comboio demoraria cinco horas e com diversas paragens ao longo da linha.
     Tratava-se duma viagem já minha conhecida em que se apresentavam algumas precauções pois, na frente da locomotiva, seguia sempre um quebra minas para “alisar” o terreno. Vagarosamente, percorria-se toda a vastidão do Cuanza Norte, e de paisagem em paisagem, sentia-se um contentamento interior pelo momento gozado. Raiava o nascer do sol por entre as longas pernadas dos cactos, dando vez aos embondeiros, palmeirais e matas serradas que numa combinação consentida, deixavam-se penetrar pelo gigante de ferro.
     A meio do percurso, fazia-se uma pausada paragem para se tomar o pequeno-almoço. Tudo combinado. O revisor, enquanto fiscalizava os bilhetes, anotava a clientela. Depois, telegrafava para o restaurante muito conhecido na Estação de Canhoca a fim de reservar mesa para este tipo de “turistas”. Era um mimo! 
ESTAÇÃO DE CANHOCA         
     Salazar, seria a minha Estação final, para de seguida enfrentar a viagem com boleias diversas. Lucala, Samba Cajú,  Camabatela, Negage e Carmona, eram as cidades que estavam inseridas no meu roteiro.
     Num camião de marca “Leiland” prossigo viagem até ao Negage, com paragens breves nas povoações de Samba Cajú e Camabatela. Pelo caminho perscrutava a paisagem montanhosa com vegetação rasteira. Sendo localidades de pequena monta, não deixavam de ter algum pormenor com interesse e que pudesse e merecesse ser fotografado. Assim, amontoei fotografias de igrejas, únicos monumentos de realçar por terem características menos comuns.

IGREJAS DE SAMBA CAJU E CAMABATELA
PORTA DE ARMAS E RUA DO NEGAGE
     Negage, não tinha qualquer atractivo de renome para o visitante. Havia sim, a Unidade militar e, esta, tratava-se simplesmente do Aeródromo Base nº. 3, tal qual o nosso de Henrique de Carvalho. Aqui, teci as minhas críticas confrontando este aeródromo com o de Luanda e o do Saurimo. Sem “cunhas”, coube-me o A.B.4, e decerto que não foi o pior!
     Em todas as Bases encontrei gente minha conhecida e, nesta, deparei-me com o velho amigo açoriano Hélder Vitorino, aquele que me ajudou no tirocínio de especialidade na Base das Lajes.
     De mota, percorremos toda a cidade e arredores. Deu-me a conhecer gente da sua Ilha Terceira – vaqueiros radicados nestas paragens há longos anos. Viam-se quintas verdejantes, gado bovino em toda a área, belas instalações para a ordenha, técnica desenvolvida com semelhança às gentes da Cela, no Huambo.
     No aquartelamento, outras caras conhecidas se apresentaram. Um tal José de Sousa, meu amigo de infância e da minha terra natal, o Clemente, Orlando, Amaral – controladores neste aeródromo, sendo que dois foram do meu curso. Parecia que o mundo era pequeno. Tinha “família” nos cantos onde a língua lusa era falada.
     Conhecidas as instalações, tão semelhantes às de Saurimo, logo se me deparou prosseguir viagem até à próxima cidade, e daí, até Carmona, capital do Uíge.
     Visitei o Museu, a piscina onde actuou a nossa fadista Amália e por fim, o mercado local com as suas bananas de fritar, gigantescas.
PISCINA E RUA DE CARMONA
MERCADO EM CARMONA
     Desiludido com esta viagem, prometi   regressar a Luanda por outra rota, por aquela em que o Tarzan viveu, onde a Rainha Ginga reinou, terras da vivência do conhecido e afamado “Zé do Telhado”, zona de reserva e parque nacional da espécie rara da Palanca Negra, Pungo Andongo, e assim tomei o caminho das grandiosas “Quedas de Água do Duque de Bragança”, e isto, já na direcção de Malange. 
     Pois bem, retorno à estrada que me levou ao Negage e rasgo caminho até Samba Cajú e, isto, motivado por duas razões: Uma, porque a rota mais curta que me levaria a Luanda, passando pela Fazenda de Bulungundo, Quissenzel, Quindembe, Bulabando e Caxito, se encontrava protegida por coluna militar sendo o perigo eminente. A outra, porque o retorno a Samba Cajú me levaria a zonas de rara beleza e duma historicidade imensa, tudo incutido nas redondezas de Malanje.
    Ora, perto de Samba Cajú (deixando Camabatela para trás), e mais propriamente numa localidade de nome Matamba, escuto um residente muito estudioso que me fala sobre lendas e factos reais da sua própria vila e arredores.
     Começa assim: “Aqui viveu uma Rainha Negra – a Rainha Ginga.  Símbolo de Angola e apreciada como o nosso Viriato. Esta Rainha nasceu em 1583, na Matamba, e faleceu em 17 de Dezembro de 1663. Também conhecida por Rainha “Ngola” pertencente aos reinos do Ndongo e Matamba. O seu título real e na língua quimbundo “Ngola”, foi o nome utilizado pelos portugueses para denominar esta região (Angola). A célebre Rainha Ginga completava-se com o nome de Ngola Ana Nzinga Mbande ou, simplesmente, Dona Ana de Sousa.
     Viveu durante o período em que o tráfico de escravos e a consolidação do poder dos portugueses na região estava a crescer rapidamente. 

     Era filha de Nzinga Mbande Ngola Kiluanje e de Gueguela Cakombe, e irmã do Ngola Ngoli Bhondi (o régulo da Matamba), que revoltado contra o domínio português em 1618, foi derrotado pelas forças sob o comando de Luís Mendes de Vasconcelos. O seu nome surge nos registos históricos três anos mais tarde, por altura de uma conferência de paz de seu irmão com o governador português de Luanda. Após anos de incursões portuguesas para capturar escravos, e entre batalhas intermitentes, Ginga negociou um tratado de termos iguais, converteu-se ao cristianismo para fortalecer o tratado e adoptou o nome português de Dona Ana de Sousa.
     Ginga formou uma aliança com o povo Jaga e conquistou o reino da Matamba, que pertence à província de Malanje, redondezas das quedas do Duque de Bragança e das afamadas Pedras Negras de Pungo Andongo.
     Após a sua morte, sete mil soldados desta Rainha foram levados para o Brasil e vendidos como escravos. Os portugueses passaram a controlar a área em 1671.
     No Brasil, o nome da Rainha Ginga é referido em vários folguedos da Festa de Reis dos negros do Rosário, onde reis do Congo católicos lutam contra reis que não aceitam o cristianismo.”
     Ouvida esta particularidade histórica, seguir-se-iam outras que passarei a narrar durante a restante parte da minha viagem.
QUEDAS DUQUE DE BRAGANÇA
     Deixando a Matamba, local onde se encontra sepultada a grande Rainha, a heroína angolana, - logo prossegui em largas passadas na direcção às quedas do Duque de Bragança. Reconheço as povoações de Quilemba, Munguengue, Lucala, e tomo o rumo de Malanje. Passo por Cacuso e viro no Lombe, para subir até Kalandula. Detenho-me neste paraíso por longos momentos e avidamente absorvo toda a paisagem circundante e recordo as lendas do meu narrador. Estou na presença das segundas maiores quedas de água de todo o continente africano – as conhecidas quedas do Duque de Bragança.  Estas quedas afloram-se no rio Lucala e têm cento e cinco metros de altura. Em grandiosidade seguem-se às quedas Vitória, no rio Zambeze, na ex-Rodésia. A sua beleza só causa deslumbramento em ser visualizada porque, ao ser descrita, perde todo o encanto que representa.
     Sei que cheguei a este local numa das alturas de seca e o curso do rio seguia baixo. No topo, as pedras gigantescas, já gastas pela erosão, sobrepunham-se às águas e, de pedra em pedra, saltitava-se todo o trajecto da largura do rio e em precipício. Lá em baixo, a estrondosa corrente despenhava-se na verdejante planície, e o rio vagaroso seguia o rumo ao Cuanza, seu pai por opção. 
QUEDAS DE KALANDULA                                                      RIO LUCALA             
     Que histórias ou, lendas me contou o meu narrador?! As histórias e lendas da Rainha Ginga e as do Tarzan, nosso herói africano. Contou ele que…
     “Tarzan teria nascido e vivido nos vastos reinos da Rainha Ginga posto que, segundo a teoria do grande conhecedor de geografia e cartografia, Edgar Rice Burroughs, determinou como terra natal de Tarzan, a região situada a mil e quinhentas milhas da cidade do Cabo ou, como Latitude Sul, a de 10 graus. O primeiro local corresponde à cidade de Benguela, e o segundo é junto ao Cabo de São Brás, a cento e trinta quilómetros a Sul de Luanda. Entre o paralelo 10 e Benguela vão trezentos quilómetros em linha recta – extensão excessiva para dois locais completamente diferentes. Mas se efectuarmos a medição do percurso marítimo para a cidade do Cabo em milhas náuticas, o novo local será relativamente perto, a cinquenta quilómetros a Sul do Cabo de São Brás, próximo da desembocadura do rio Longa, a Norte de Porto Amboim.
     Analisando mais em detalhe as duas informações dadas por Burroughs (cerca de 10 graus Sul na direcção do Cabo ou, quinze centenas de milhas para o Sul), verificamos serem duas indicações pouco precisas no que  se admite alguma margem de erro. A latitude poderá ser entre 9 a 11 graus e a distância da cidade do Cabo ficar entre 1 550 a 1 450 milhas. Acrescentando outro factor importante sobre o ambiente da história africana  de Tarzan, onde encontramos gorilas, animais da selva tropical húmida, e também animais que habitam a savana, como leões, rinocerontes e grandes elefantes – a região terá que ser um misto de selva e savana ou, de transição entre as duas. Além disso, está também descrito que a selva deveria prolongar-se até junto às areias da praia banhada pelo Oceano Atlântico. Nestas condições, pensa-se que a localização mais provável seria a Barra do Cuanza, estendendo-se pelo interior do rio e seguindo o afluente Lucala até às quedas” … onde me encontro.
     De Kalandula (D. de Bragança), subo mais um pouco a fim de visitar e conhecer a “Mesa da Rainha Ginga” – local com largas referências na história de Angola.
MESA DA RAINHA GINGA              
     Tomando mais uma vez a rota originária, desço em prol de Malanje, passo pela capital de Província, volto para Sul e percorro grande parte do Parque Nacional de Kagandala para contactar de perto com o imponente e raríssimo antílope – a Palanca Negra Gigante, símbolo marcante de Angola.
     Este trecho que se segue, quem o vai narrar, sou eu:
     Parque estabelecido em 1970 com uma área de seiscentos quilómetros quadrados. Nessa época, quem matasse um destes animais em vias de extinção, levaria como multa a importância de mil contos, e com prisão garantida.
     A Palanca Negra existe apenas em duas áreas de conservação na Província de Malanje – a reserva integral de Luando e o Parque Nacional da Kangadala, sendo a imagem da Companhia aérea angolana TAAG. O nome pelo qual é conhecida a selecção nacional de futebol “Palancas Negras” também foi inspirado neste antílope

    Este tipo de antílope foi descoberto em 1909 por Frank Varian, engenheiro belga ao serviço dos Caminhos-de-Ferro de Benguela. Em vias de extinção motivado sobretudo pela guerra civil angolana, eis que foram retomadas medidas de protecção e assim surgiu a esperança de voltar a ver manadas dos mais belos animais africanos.
     A Palanca Negra é uma rara espécie de antílope, única no mundo, que tem como berço a Província de Malanje. Este animal, segundo a mitologia africana, é símbolo de vivacidade, velocidade e beleza.
     Até ao terceiro ano de idade, machos e fêmeas são muito semelhantes, até que os machos começam a se tornarem escuros e os chifres a crescerem em maneira desproporcionada. Um macho adulto mede ente 116 a 150 centímetros e pesa mais de 240 quilogramas, enquanto que as fêmeas permanecem pequenas.
     Nos machos os chifres são curvos e em meia-lua atingindo 165 centímetros de comprimento. Tendem a viver próximos das fontes de água e nutrem-se de ervas rasteiras. É imponente e de rara beleza como se mostram nas fotografias anexas.
     Para se percorrerem os locais mais apelativos temos que vaguear constantemente e, neste profundo e vasto território, assim aconteceu por diversas ocasiões.
CAMILO E ZÉ DO TELHADO          
     Retornei ao cruzamento de Malanje e enveredei pela estrada que seguia para Henrique de Carvalho. Deparei-me com as povoações de Cambondo, Catala, Caculana e, por fim, Mucari. Junto à última localidade, procurei saber onde se situava a velha aldeia de Xissa, essa aldeia onde se encontra sepultado o conhecido “Zé do Telhado”.
     Estando em Angola, eu, não abandonaria este país sem prestar homenagem ao homem que intitulávamos de “Robin dos Bosques português”.
     Curiosamente, soube mais pormenores acerca da sua evasão e desterro para terras das Lundas, para além das suas conhecidas aventuras na Metrópole. Resumo tudo à maneira contada pelo meu narrador…
     Celebrizado pela sua audácia enquanto salteador, Zé do Telhado foi um valoroso combatente militar cujos créditos foram reconhecidos. Enquanto militar, lutando pelos liberais contra os absolutistas, subsistem diversos registos e relatos da sua valentia, tendo recebido a medalha de Torre e Espada, por actos heróicos nas hostes de Sá da Bandeira, do Duque de Setúbal e na revolta da Maria da Fonte.
     José Teixeira da Silva, o famoso Zé do Telhado, terá nascido a 22 de Junho de 1818 no lugar do Telhado (de onde origina o seu nome popular), aldeia de Castelões de Recesinhos, na comarca de Penafiel. Reza a lenda que era filho de um chefe de uma quadrilha de ladrões e de uma família cuja principal actividade era extorquir o alheio. De facto, quer o seu tio-avô, quer o seu pai haviam sido quadrilheiros, tal como o seu irmão mais velho.
     Casado com a sua prima Ana Lentina de Campos (a boda celebrou-se a 3 de Fevereiro de 1845), Zé do Telhado entrega-se à vida militar de corpo e alma, sendo condecorado pela sua bravura. Após algum tempo, regressa para o seio da família, uma transição que contou com diversos obstáculos, nomeadamente, o facto de ter dívidas pelo não pagamento de impostos, acabando por ser expulso das Forças Armadas. Sem conseguir arranjar trabalho, restou a Zé do Telhado transformar-se no mais famoso bandoleiro de Portugal.
     Com as autoridades no seu encalço por todo o País, Zé do Telhado resolveu fugir para o Brasil, escondeu-se na barca “Oliveira”, acostada no Porto. Ali estava à guarda de Ana Vitória, uma mulher que fora sua vítima mas que se tornara sua admiradora. Cabe-lhe a ela a frase lapidar que o transformou no Robin dos Bosques português ao dizer: “existem pessoas de bem que nunca deram às classes humildes um centésimo do que lhes deu Zé do Telhado.”
     Viria a ser capturado pelas autoridades e preso na Cadeia da Relação, no Porto, onde conheceu o escritor Camilo Castelo Branco.
     O seu julgamento teve início a 25 de Abril de 1859, com acusação pública em 9 de Dezembro do mesmo ano. Foi condenado na pena de trabalhos públicos por toda a vida, na costa ocidental de África e no pagamento das custas. Esta pena foi comutada pelo Tribunal da Relação do Porto em 15 anos de degredo para África, sendo publicada em Setembro de 1863.
     Já em Malanje, tornou-se negociante de borracha, cera e marfim e casou com uma local, de nome Conceição, com quem veio a ter três filhos. Era conhecido entre os angolanos como o “quimuêzo”, ou seja, o homem de barbas grandes, já que as deixara crescer desde que chegara a África.
     Zé do Telhado morreria de varíola em Angola em 1875, com 57 anos, sendo sepultado na aldeia de Xissa. Ainda hoje são feitas romagens à sua campa e surge na boca dos anciãos como figura mítica e protectora dos mais desfavorecidos.
CAMPA DO ZÉ DO TELHADO (EM XISSA-ANGOLA)          
     Entretanto, as minhas férias estavam a finalizar e, embora houvesse muito para conhecer, era altura de preparar o meu regresso a Luanda.
     De Xissa até Malanje faziam-se cinquenta quilómetros, mas de Malanje à capital, somavam-se quatrocentos e cinquenta. Pelo caminho, ainda tinha que fazer uma visita de cariz panorâmico e histórico. Tratava-se da fortaleza natural de Pungo Andongo, situada nos arredores de Malanje, já na tomada de Cacuso.    
     Pedras Negras de Pungo Andongo, local onde faleceu a Rainha Ginga. Nestas gigantescas pedras, reza a lenda que esta rainha ali deixou a sua marca bem cravada nas pedras que pisou.
     Gigantescos megalitos a cerca de 116 quilómetros de Malanje e a 90 quilómetros das quedas de Duque de Bragança. Situam-se entre os rios Lucala e o Cuanza, a Oeste de Mbaka.
     A configuração destas pedras enormes, que chegam a atingir mais de cem metros de altura, chega a lembrar paisagens extra terrestres, resultado provável de grandes convulsões da Era Glaciar.
     A cor predominante das rochas é o preto, apesar de serem constituídas de massas de gneisses, xistos vermelhos e calcários de colorações diversas. A cor preta, provém de determinadas algas filamentosas que se desenvolvem nas águas absorvidas pela rocha.
     Pungo Andongo, impõe respeito, imponência e silêncio. Fortaleza natural das hostes da Rainha Ginga, aspirando à unificação dos povos de todos os Sobados do reino Ngola, combatendo e submetendo Jagas, o Libôlo, a Matamba, o Kassange e se preparava para aumentar os seus domínios até à Kissama.

     Bem no alto de um dos maiores monólitos do Pungo Andongo, vê-se nítida, em baixo relevo na rocha, a marca de um pé enorme. Diz a lenda que é a marca da pegada da Rainha Ginga, que tinha esse lugar com ponto principal de observação à aproximação de tropas invasoras.
PUNGO ABDONGO E PEGADA DA RAINHA GINGA             
     No retorno a Luanda passei por vilas e cidades já referidas por mim em crónicas anteriores (Salazar, Dondo). Sendo a viagem longa e já conhecida, havia que arrepiar caminho e apresentar-me às autoridades militares na data precisa.
     Para pôr termo às minhas crónicas africanas, só terei que me propor a fazer uma dissertação pela capital e subúrbios, texto a apresentar na próxima ocasião.

Até breve
VÍTOR   OLIVEIRA - OCART