quarta-feira, 26 de junho de 2013

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE" V


Nota Introdutória
No périplo acostumado dos “azulinhos” e depois de terem colocado os “trens” no asfalto, sucediam-se sempre as mesmas passadas. Repetiam-se vezes sem número pelos vinte e tantos meses de comissão. Do Hotel Pereira Rodrigues, farejavam os diversos bares espalhados pela grandiosa “urbe”: Cubata, Estrela D´Alva, Mobil, Lux, Quioco, Clube de Saurimo, Cinema Chikapa, etc.
Faziam-se tangentes à Igreja, Palácio do Governo, Correio, campos da bola, piscina, cinema – tudo à caça das pombinhas. E, de tiradas duvidosas … rumavam para as sanzalas, projectados para missões humanitárias!...
Mas, deixem o “marrador” situar melhor a rota infinda dos más-línguas.
_________________________________    ///    _______________________________
Marrador – Saudosos, naquela noite quente como a febre do doente, lá estavam os nossos “magalas aéreos” a curtirem no Bar Quiouco. Porém, lembraram-se das mulatas deitadas nas cubatas sem janelas, e eis que se impulsionam para outras paragens da cidade.
VITO – Vamos à vida?
JOCA – “Let´s e kamón”.
VITO – Estás armado em “bife”?
JOCA – Bruxito. “Kultura” meu…
VITO – Vamos em frente, passamos pelo Cubata, mas sem parar. Só miramos o pessoal por via aérea e desandamos como uma “bufa”.
JOCA – Perto do Cubata vive a família magnata da cidade!...
VITO – Eu sei. O OLIV namora a filha.
JOCA – Porra!... Sabes tudo!...
VITO – Então, ele anda no Liceu com ela. Até soube que levou a balança de pesar “kamangas” para uma aula de química.
JOCA – Ehhhh….pá! Essa, é forte! Experiências!...
VITO – Aqui em frente do Hotel mora a família Soeiro. Pessoal meu conterrâneo. Já se encontram aqui desde os primórdios e têm muitas histórias interessantes.
JOCA – Sabes alguma?
VITO – Há dias atrás não viste um leão morto num jipe?
JOCA – Vi. Foram caçadores que o mataram.
VITO – Pois bem. O Soeiro contou-me que no final da década cinquenta não existia matadouro na cidade. Os animais eram colocados numa cerca de madeira e abatidos a tiro de caçadeira por um dos cidadãos. Essa acção até servia de espectáculo à população. Um dia, o caçador apontou a espingarda para a vaca a abater porém, desviou a mira sem se saber o porquê… E a multidão logo se interrogou com o gesto do mata rezes.
JOCA – Estava louco?
VITO – Louco? Apontou a arma para além da cerca e abateu um leão que se preparava para comer a vaca!...
JOCA – Leões na cidade?
VITO – Aprende… o leão da Lunda foi muito afamado e circundava a cidade há meia dúzia de anos atrás. Frequentemente eram avistados junto ao Clube de Saurimo.
JOCA – Já não vou à Barragem do capelão!...
VITO – Podes ir… os leões não andam de carrocel!... Tens “miúfa”?
JOCA – Olha, enveredemos pela Avenida do cinema. Por aqui não há leões. Só… leoas.
MARRADOR – A cidade era pequena e fazia-se bem à pata. Do Hotel Pereira Rodrigues, tomam o rumo Oeste na direcção do cinema Chikapa. Eles lá sabem o porquê!...
VITO – Queres ver o filme “A Dama das Camélias” da Sara Montiel?
JOCA – Sabes tudo. Até as fitas que correm?!...
VITO – O OLIV informou-me pois, estará lá com a filha do magnate, proprietário do cinema.
JOCA – O sortudo!... Estes ases do Leste namoram tudo o que é rico!... É a filha do Governador, é a filha do Secretário, é a filha do pedreiro…
VITO – Essa última, não.
JOCA – Foi a que te gozou?
VITO – Amélia…trá…la…rá…la…rá…
JOCA – Canta, canta, que o teu mal espanta. Depois do filme preciso de comprar umas coisas no “fardex”.
VITO – “No problem”. Temos o tempo todo por nossa conta. Vamos visitar o Jesus na estalagem do cripto, e o Sargento Baptista que vive num apartamento alugado. Depois, vamos ao “fardex”. Seremos os primeiros a desfazer o fardo para escolhermos a roupa. O filho do proprietário já combinou com o pai a fim de sermos os primeiros a escolher as peças…antes do pessoal da sanzala.
 JOCA – Tudo por tua conta. És o “BIG”!
VITO – “BIG BEN” !...
MARRADOR – Gozões… Sempre na “carneirice” do costume. Viram a “fita” como dois adolescentes, miraram o namoro do OLIV e a sua TER – lá para os confins dos balcões, e foram visitar o Jesus e o Baptista. Depois, seguiram para os lados da Junta Autónoma de Estradas, começos da estrada para o Luso.
JOCA – O Jesus estava todo entrapado!
VITO – Não soubeste que ele deu cabo da ponte do Chikapa?
JOCA – Como, se ela é de ferro?!...
VITO – Pois, por isso mesmo é que ele esteve em coma e quase partiu deste mundo para visitar o S. Pedro…
JOCA – Já estou a ver que ele ia de mota!
VITO – Parece que foi atacado. A coisa esteve mal!...
JOCA – E o Baptista? Alugou apartamento na cidade mas… ele é solteiro?!
VITO – “Atão”… Lá tem os seus esquemas e ideias. Olha, de vez em quando vou beber umas cucas com a malta conhecida e, por vezes, temos lá umas “coelhinhas”. Tudo boa gente.
JOCA – Estou a vê-las!...
VITO – Vês…vês aquela placa a sinalizar a entrada para H. de Carvalho?
JOCA – Sim, e depois?
VITO – Foi nas proximidades dela que se deu o ataque ao Sargento Carvalho aquando do negócio das “Kamangas”.
JOCA – Tive pena pela morte desse companheiro!... Tanta gente no negócio e foi aquele o mártir!...
VITO – Segundo reza a história, antes da nossa comissão houve um soldado que conseguiu “exportar” umas boas “Kamangas” para o “puto”.
JOCA – Como?
VITO – Pagas para saberes?
JOCA – Pago. Até posso ter conveniência nisso.
VITO – Colocou as “Kamangas” num tubo da pasta de barbear, e ala que se faz a mala.
JOCA – E não acusou nada?
JOCA – O invólucro tem chumbo… aprende.
JOCA – Ahhh!... Há pouco tempo soube que o PIN e mais três, foram às compras desse “material” lá para as sanzalas  do Oeste.
VITO – Fizeram negócio?
JOCA - Ora, montados em duas motas, palmilharam alguns quilómetros. A sanzala estava em festa com os “canhicas” ou, “cilongos”, na “wino” com saias de palha e a pedirem umas “falangas” à malta. Os “gomas tchinguvos” arrufavam juntamente com a melodia dos “quissanjes”. Tratava-se da “tchisela”, uma dança muito conhecida pelos autóctones. Foi difícil encontrar o negociador. Depois de algumas incertezas… compraram-se umas pedritas que ficaram na posse do SOI.
VITO – Deu alguma coisa?
JOCA – Segundo informações… bem, as pedritas tinham carvão e foram vendidas por pouca coisa. Quem lucrou foi o SOI pois, como era o mais teso ficou com a “falanga”  toda para tirar a carta de condução. Os restantes três concordaram…
VITO – Muita gente anda metida nisto!...
JOCA – A “rusga” já anda a investigar professores, polícias, e que mais?!...
VITO – Cautela, meu!
JOCA - Nesta estrada para o Luso, contou o OLIV que em viagem num T-6 com o PIN meteram um “cagaço” a um negro que vinha de “kinga” na recta.
VITO – Como assim?
JOCA – Meteram o avião a pique direitinho ao “carvão” e só tiveram a ocasião de ver a “kinga” deitada no asfalto e o sujeito a fugir pela “nhara” fora!... Disse que lá de cima…foi um espectáculo!...
VITO – “Malandrecos” esses “pilotaços”. Parecem o “Major Alvega”… da banda desenhada!
JOCA – Então, e o “fardex”? Preciso de roupa e o “tangwa” já vai alto.
VITO – Vamos lá ter com o meu amigo para saber se o pai já desatou o fardo.
MARRADOR – Volteando os fardos, lá escolhiam as calças e camisas enrugadas, provenientes da África do Sul. Eram “magotes” de roupa cedida gratuitamente para os candongueiros do comércio local. Ainda se conseguiam umas peças chiques e baratas que até faziam figura. Lembravam a roupa vendida em segunda mão, nos “Américas” nas Lajes.
…,…    …,…
Aqui, na tasca do comerciante, desenhava-se o convívio para o jantar. Já se falava na “muamba” de galinha regada com “marufo” ou, “malufo”… da “tapioca” como sobremesa, e no célebre digestivo da “catchipembe”. Para finalizar… umas “liambadas” ou, umas baforadas na “mutopa”… se o nosso “Nzambi” deixar!...
Maravilha… das maravilhas, esta África enfeitiçada!...            Enfim!...


Língua Quioca
Kamanga – diamante
Canhica / cilongo – jovens
Wino – dança
Falanga – dinheiro
Goma tchinguvo – tambor
Quissange – instrumento musical de palhetas
Tchisela – dança da circuncisão
Kinga – bicicleta
Nhara – savana
Tangwa – sol
Muamba – pirão ou funge com dendén
Quiouco – O pensador
Marufo – vinho feito da fermentação da seiva da palmeira
Malufo – vinho
Tapioca – papa de farinha de mandioca granulada e doce
Catchipembe – aguardente
Liamba – tabaco
Mutopa – cachimbo de água
Nzambi – Deus
Anotações:
Oliv, Ter, Pin, Soi – Nomes fictícios – mas com factos reais
Soeiro, Baptista, Jesus, Carvalho – Factos reais
Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue
Versos:
Hino dos Saltimbancos – Letra de Franklin Santos (uma quadra)

 Até Breve

 

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE" - IV


Nota Introdutória
     Situamos os “especiais” a caminharem pela Avenida Central, (Soares Carneiro),aquela que deixava para trás os Correios. Subia, subia e dirigia-se para os lados da Grande Rotunda e do Depósito Branco da Água. Observem as fotos e localizem-nos.
_________________________________    ///    _______________________________


Marrador – Na cidade havia uma Cerâmica de tijoloque foi edificada com o principal propósito de servir à construção da Base. Isto, já desde os primórdios de 1964. Depois, outros interesses lhe foram atribuídos… Nela, e por conveniência própria, trabalhava um militar da nossa PA, pertencente ao A.B.4. Este nosso companheiro tinha sido destacado para a cidade para fiscalizar o Depósito de Água que se situava junto à Grande Rotunda que dava acesso à Base. Passava todo o tempo na urbe e tinha como residência fixa – uma cubata nos arredores. Era o nosso JULI. 
Escutem a conversa do VITO e do JOCA…
VITO – Ohhh…Joca.
JOCA – Anh!
VITO – Antes de irmos matar a sede ao Bar dos Passarinhos…vamos visitar o Juli à Cerâmica.
JOCA – Aquele teu conterrâneo? O alcunhado de Soba?
VITO - Soba, “sanzaleiro”, “muatan”, “xacala”, “muata”. Eu sei lá!...
JOCA – Pareces que és formado em zoologia! Tantos nomes animalescos? Porquê a visita?
VITO – Tem sempre histórias para contar. E, depois, talvez nos apresente algum pitéu fora do vulgar. Conhece os “musseques” todos…
JOCA – Não foi o Juli que conseguiu viagem para o “puto” gratuitamente?
VITO – Estás a dar em “tahí”. Adivinhas tudo. Foi!…Falou com o Capelão…disse-lhe que gostava de estar presente para o batismo da filha…e lá conseguiu a cunha.
JOCA – Mas ele até não é muito religioso?!...
VITO – Mas é esperto que nem um “nganga”. Olha a tropa dele!... Nem conhece a Base. Os serviços de prevenção, paga-os aos colegas para o fazerem. Assim, não sai dos “quimbos” e junta-se às “tusulas”. À linda Rosa que vive perto do Rádio Farol. Conheces?
JOCA – Conheço, conheço. Linda menina!... E já tem um “cabutinho” mestiçado…
VITO – Chiuuu… Vem aí o nosso “muquixe”.
JULI – “Moyo”
VITO / JOCA – “Moyo Weno”. “Gungungo”?
JULI – “Kanawa”. Perderam-se por estas bandas?
VITO – Quisemos fazer-te uma visita. Ausentaste-te da Base e não dás confiança aos conterrâneos!...
JULI – Vou fazendo a vida por aqui até ao final da comissão. Estou habituado a esta gente. Faço uns trabalhos na Cerâmica e os serviços da FAP…na vigília do Tanque da Água. Consegui uma “cubata” nos arredores…e estou com a minha “pwo”…pretinha!...
Vamos ao petisco? Tenho ali umas coisas guardadas para os amigos…
VITO / JOCA – “IACAMOKA”!...Já não era sem tempo!

Marrador – Muita conversa se soltou. Abancados na tabanca, conversavam, conversavam. O “muatchianvua”…era o bravo Juli, com as suas histórias de negros!...


JULI – Oiçam mais esta!...Há dias, combinei com alguns companheiros de armas, em fazermos um pitéu à maneira. Precisávamos de roubar um cabrito na sanzala vizinha porém, este tipo de “sacar” é muito perigoso perante as leis dos Sobas.
   Já noitinha, pela cacimbada, soltámos um cabrito e trouxemo-lo através do matagal. Perdidos, caminhámos entre arbustos e não avistávamos qualquer saída. O bichinho, balia, balia com frequência…e nós começámos por sentir um aperto no coração…e um formigueiro nos pés!
Nisto, ouvimos vozes irritadas a proclamarem…ladrões, ladrões…Enfim, uma multidão empunhando os seus“jimbos” percorria a savana à procura do cabrito e dos “cabrões”!... O que fizemos? Procurámos uma toca, escondemo-nos muito agachados uns aos outros, e segurámos no cabrito – desejosos que ele não balisse… Mas ele balia, balia, comprometendo a nossa vida. Um de nós, pegou-lhe no focinho e manteve-lhe a “fussa “ fechada…até que as vozes deixaram de se ouvirem. Resultado, cabrito morto por asfixia…livrámo-nos dumas catanadas, mas não dum “cagaço” terrível!  

Marrador – Muitas histórias se seguiram contadas sob um timbre especial. O Vito e o Joca pareciam adolescentes a escutarem coisas de África. Mas tudo tinha um fim… e assim, se despediram do Juli para caminharem até ao “Bar Quiouco”. Outra das grandes etapas da cidade gigante. Gigante…como a “formiga cadáver”!...

VITO – Este Juli parece um papagaio a palrar. Será tudo verdade?!... Uma coisa é certa, partiu de férias, foi ao batizado da filha, e quando voltou do “puto”…voltou arreliado!
JOCA – Estragou-se lá? Como, se foi para se divertir?
VITO – A mulher viu uma fotografia dele junto a uma mulata com um bebé mestiço.
JOCA – Desconfiou da “marosca”? Seria dele?
VITO – Mistérios de África!…
JOCA – Vamos até ao Quiouco pois, está lá o Pinheiro, o Torres, e outros tantos…
VITO – OK, meu!... Ainda estou a pensar em quantas “falangas” deu o Juli ao Soba para poder estar na cubata a viver com a…
JOCA – Esquece. Águas passadas não moem farinha!...
VITO – Tens razão. Olha, estás a ver aquele edifício todo decorado, tipo Discoteca?
JOCA – Sim, quase colado ao Hospital. Porquê?
VITO – O Borges, meteorologista, aquele que estudou Belas Artes, foi convidado pelo dono para decorar o interior e exterior com o propósito de criar um local recreativo à imitação da Metrópole.
JOCA – O Borges…da cabrita? Aquele que namorisca o docinho lindo e gostoso como o milho?
VITO – Esse, e essa mesma. Os olhos dela, verdes de matar, assemelham-se à bela decoração da Discoteca. Colocou nas paredes umas peças feitas de sarapilheira, douradas, folheadas. Nas paredes, pinturas surrealistas. Balcão moderníssimo e mobília feita com arte indígena. Tudo…a matar!
JOCA – O rapaz também fez algumas coisas no nosso bar dos Especialistas!...
VITO – A FAP tem artistas que ainda virão a ser revelados. Este, será um deles. Tem gosto para a beleza.
JOCA – Não fosse ele…de Belas Artes, e belas moças!...Mulatinhas, cabritinhas, matumbinhas…nhas…nhas…!...
Marrador - Chegados ao Bar Quiouco, depararam-se com o Pinheiro e o Torres- em conversa animada. O Torres tinha acabado de chegar do “puto”. Iniciava a sua comissão. 

PINHEIRO – O que é que estas duas P…andam a fazer por aqui?
VITO – “Nos passear”, meu!...
JOCA – “As ver minina”,” y usted”?
PINHEIRO – A mamar uns acepipes. O Torres, maçarico nestas paragens…está nos ajustes.
VITO – Uihhh…a praxe dos graduados é mais requintada!
JOCA – Pudera, ganham mais!...
PINHEIRO – Eu só mandei vir um passarinho, mas o Torres diz que um só…não lhe chega para a cova dum dente.
TORRES – No “puto” comia uma dúzia de passarinhos…e ficava com fome!...
PINHEIRO – Deixa vir só um. Depois, mandas vir os que quiseres.
TORRES – Ehhh…pá!... O passarinho é grande?!...
PINHEIRO – Pois, estamos na savana africana. Aqui não há pardais…ou, melhor, há…mas são mais gordos.
TORRES – Isto é um frango inteiro?!...
PINHEIRO – É o passarinho da casa. Comias uma dúzia? O passarinho do Quiouco Bar…é assim! Tens muito que aprender em Terras Africanas. Paga, paga e não bufes…
VITO – A praxe do “especial” é diferente!... Tomem nota do que aconteceu há tempos atrás. O Rui Neves contou-me que quando chegou a H.C. foi recebido por um grupo de especialistas. O mais destacado do grupo estava fardado com a “turbe” amarela. Velhinho, maduro, sabichão, com as lides dos trópicos…Seu nome? Agante.
Guloso, pensava que o seu “acabadinho” de chegar, seria o substituto. Enganou-se pois, era o substituto, não dele, mas do Rego. …,… Tudo gente fina!...
JOCA – Tudo isso deu aso a quê?
VITO – Ameaças, ameaças. Num tom ríspido, severo como as cobras, ripostou: “Eh pá!... se cá estivesse o meu amigo Rego, esfolava-te vivo”. “Está a lerpar há quatro meses e anda cacimbado de todo”. “Enfim, eu vou representá-lo nas praxes devidas!...”.
JOCA – Continua com a narração. Sempre quero comparar com a praxe dos Sargentos.
VITO – Olha, o Agante deu-lhe um “pequenino livro” que pesava cerca de dois quilos. Chamavam-lhe o“RAMFA” e tratava-se dum Manual de Instrução de Abastecimentos. Só lhe disse: “Levas o livro para estudares e não podes larga-lo durante o dia inteiro”. E perentório, ainda afirmou:  “E a tua mala fica comigo”.
PINHEIRO – Só isso? Praxe feita?
VITO – Espera. Depois do RN ter ido à camarata colocar as coisitas saudosas do “puto”, dirigiu-se para a Messe na intenção de almoçar. Ao entrar no Clube, o Agante, já avisado da sua chegada, pediu total silêncio à multidão ali prostrada. O Rui Neves foi apresentado como sendo um intruso, invasor, causador das tonturas do Rego…que andava passado dos “carretos”. O Juiz suplente…tinha que o julgar. E, as vozes dos carrascos fizeram-se ouvir… Castigo, castigo atroz!...
JOCA – A mesma praxe que me calhou?
VITO – Pior. Ou, talvez igual…eu, é que estou a “jingundar” a história!...Mas, as vozes aclamaram…”Um das Caldas cheio” ou, “Um banho turco na piscina dos alfaiates”…
JOCA – O que é que o Rui Neves escolheu?
VITO – A “litraça” da Nocal, bebida pelo “pipinho” vermelho…e ao som do “TERI-TERI”. Tudo num só gole. Ffff…
JOCA – Fala em Quiouco e não digas obscenidades!...
VITO – Mas a praxe tinha mais “piri-piri”.
PINHEIRO / TORRES – É melhor ficarmos por aqui. Ainda teremos mortes!...
VITO – Não. Depois, houve a apresentação aos superiores hierárquicos… O RN, agarrado ao seu “RAMFA” foi ao Comando –Esquadra de Abastecimentos – Cap. Maia – Armazém Principal e apresentou-se com todos os “S” e “R” a um suposto Capitão.Sentidoooo, bater palaaaa, pronto…
JOCA – O pessoal caiu por terra a rir?
VITO – Ahhh…também caíste? Pois, o suposto Capitão era simplesmente o Fiel de Armazém, Civil, e amigo o estimado Mário Capitão!...
TORRES – Livrei-me de boa!...
VITO – E a praxe continuou, continuou… Passou-se para a cidade. Cubata Bar, “bjecas”. E a troupe danada composta pelos “magníficos” Ezequiel, Antonino, Agante e tantos mais, prolongaram a noitada!...Fardados a amarelo, tal foi a poeirada que apanharam pelo caminho na Mercedes destapada!...
JOCA – E as coisinhas trazidas do “puto”, comeram-se?
VITO – Acompanhadas com duas grades de cerveja…
PINHEIRO – Com essa praxe…já o Torres diria: “okutué”…
VITO – “Okutué” e “sujanouko”.
JOCA – Posso fazer de tradutor…mas, o Torres terá que pagar-nos uma rodada!...
VITO / PINHEIRO / TORRES – Olha… o “Passarinho”!…

Marrador - De frente para a Avenida secundária que se dirigia para o Hospital, Cubata Bar, Hotel Pereira Rodrigues, estavam os quatro numa conversa sem tempo contado. Falavam das meninas, das sanzalas e “sanzaleiros”. África, cacimbo – savana e leões. Tempo perdido numa infância agitada!... De repente, já bebidos, entranha-se-lhes uma nostalgia medonha, que o VITO arremessa com estes versos…de alguém!...Pronunciava-se o silêncio…para escutarem, a SAUDADE!...


“Em Angola,
As noites são tão quentes
Como a febre dos doentes.

São tão quentes as noites!
Tão vermelhas, das queimadas,
Tão negras…tão revoltadas…
Tão sequiosas…tão belas…
                                         Como as mulatas deitadas
                                         Nas Cubatas sem janelas.”




Língua Quioca

Muatan – Senhor
Xacala – Grande chefe
Muata – Patrão
Tahí – Bruxo
Nganga – Feiticeiro
Quimbo – Aldeia
Muquixe – Mascarado
Kanawa – Como convém
Pwo – Mulher
Muatchianvua – Senhor universal
Jimbo – Machado
Falanga – Dinheiro
Okutué / Sujanouko – Obscenidades
Anotações:
Juli – Nome fictício – mas com factos reais
Borges – Facto real
Pinheiro / Torres – Facto real
Rui Neves – Facto real

Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue

Versos:
Filipe Raimundo (alteração na conjugação de um verbo)


Até Breve
O Amigo Vítor Oliveira – OCART