quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

LESTE DE ANGOLA - 28

“LESTE DE ANGOLA”
Memórias de um passado saudoso

EXPLORADORES PORTUGUESES NA LUNDA

“Em meados de Oitocentos, a zona central dos mapas do continente africano era um enorme espaço em branco. Cinquenta anos depois estava preenchida nos seus traços principais. E, breve, por força de uma súbita competição imperial, sobrepor-se-iam às linhas da geografia as fronteiras políticas das novas colónias europeias.”

     África, contínuo movimento de migração, combinação e recombinação de genes, de línguas, de princípios culturais e de organização social, de que foram resultando à luz de circunstâncias locais e regionais um-sem número de entidades políticas e fronteiras étnicas sempre efémeras e fluidas.
     Havia impérios governados por aristocratas e soberanos despóticos e que estendiam o seu domínio por enormes áreas. E era de encontro a esses grandes impérios que as expedições avançavam, porque era esse o seu objectivo comercial e diplomático ou porque muito simplesmente eles se encontravam e eram obstáculos aos seus caminhos projectados. Nas Lundas e região do Cuando Cubango e suas fronteiras, dominavam os impérios do Imbangala, Cassanje (Malanje) e a Mussumba, (Lunda Norte). A Norte da Mussumba havia o império Cazembe e, a Sul, depois do Zambeze, o império do Barotze. Nas Lundas falava-se Quioco, Bieno, entre outras línguas.

     Os exploradores que iremos acompanhar neste tema foram de encontro às capitais dos principais impérios centro-africanos do séc. XIX. 
     Em 1831, António Gamito, na tentativa de ligar o Índico ao Atlântico, alcançou o Cazembe. Por esta altura, Silva Porto, o europeu que porventura melhor conhecia os caminhos destas regiões de África, esteve várias vezes no Barotze e em várias zonas do império Lunda, cuja capital foi visitada por Rodrigues Graça em 1846, e por Henrique de Carvalho em 1886/7.
     O império Lunda tinha o seu fulcro na região do curso superior do rio Cassai, um
dos rios que a essas latitudes correm para norte em direcção ao Congo, numa zona fértil de savana húmida e florestas onde a caça é abundante.
  Rodrigues Graça vivia no Golungo Alto, (perto de Salazar/N´Dalatando), proximidades do império de Cassanje, cujo rei dificultava a passagem de desconhecidos pela sua área de comando. Este sertanejo tinha no Golungo Alto uma abastada propriedade e os seus negócios, e desejando acabar com a escravatura submetido às leis abolicionistas do marquês de Sá da Bandeira (1836) resolve organizar uma expedição ao mítico império do Muatiânvua situado para as bandas do Norte de Saurimo. O Muatiânvua era um antigo e distante fornecedor de escravos para o ocidente (Benguela, Luanda), pelo que urgia convencê-lo, bem como os demais potentados de além Cuango, a aprofundar alternativas de comércio – com destaque para o marfim e a cera, firmando uma aliança com a Rainha D. Maria II.

     Em 4 de Maio de 1846, o explorador Rodrigues Graça parte para a Lunda, mais propriamente, para o encontro com o Muatiânvua, rei da Mussumba.
     Para enriquecer politicamente a expedição auxiliou-se de D. Ana Joaquina dos Santos Silva, mulher mestiça de ascendência portuguesa que soubera vingar num mundo de homens, nomeadamente ao enviuvar de um rico comerciante português. A fama desta abastada proprietária impusera-se no sertão oitocentista e já era fornecedora do Muatiânvua através dos aliados bângalas de Cassanje.
      Não era pois à toa que a chamavam de Dembo, ou senhora dos matos.


    O destino apontado por este sertanejo seria a região das Mussumbas, entre os rios Luíza e Calânhi, embora previsse passar além do reino do Muatiânvua e dar corpo ao lendário desígnio de ligar Angola a Moçambique – ideia já tentada e preconizada por António Gamito em 1831 na sua partida por Moçambique.
    Traça o trajecto a sul do Cuango evitando os embargos do Jaga do Cassanje, sempre arvorado em senhor dessas fronteiras. 
    A 13 de Junho de 1846, Rodrigues Graça, enfrenta um régulo de Cajanga ordenando
aos seus homens, municiados com mais de quinhentos bacamartes e pistolas, que largassem as cargas e formassem três pelotões para cercar Cajanga. Assim conseguiu prosseguir caminho sem necessidade de luta porque o régulo e sua comitiva ficaram intimidados. 
     Nesta altura, Rodrigues Graça avistou as margens do Cassai na sua trajectória nascente, rumo a leste, julgando tratar-se de um afluente do Zambeze. Desconhecia ainda que este rio descia depois a norte, a cortar a Lunda, para desaguar finalmente no grande Congo
     Encontrava-se na terra dos Quiocos, povo irmão dos Lundas e empurrados para Sul, subjugados.
     Pelo começo de Setembro de 1846, a expedição de Rodrigues Graça passou o rio Luiza e cumpriu trezentas léguas de viagem desde o Bié. Nesta ocasião, avistou pela primeira vez o régulo, imperador Muatiânvua – aquele a quem chamavam de Noeji, de mediana estatura, mais delgado que robusto, lábios grossos, nariz chato, rosto comprido, cor retinta, calvo, mas usando peruca.



     E assim se apresentou Rodrigues Graça ao rei da Lunda, Muatiânvua da Mussumba: 
   “Muatiânvua, perante vós me apresento como enviado extraordinário de Portugal (Muene Puto), como embaixador, para comunicar-vos que são veementes desejos do seu governador em Angola abrir comunicações com o vosso Estado. A fama de vosso nome, bem como de vossas acções, há muito têm chegado aos ouvidos de Sua Majestade. Eu sou o órgão por cuja voz o meu governo vos deseja conhecer melhor”. 
     Em Janeiro de 1848, Rodrigues Graça regressa a Cassanje. Antes deste sertanejo, outros de Angola chegaram à região das Mussumbas para fazer negócio na corte do Muatiânvua, mas foi ele o primeiro português, aliás o primeiro europeu, que dela deixou um relato escrito.
     Silva Porto conseguiu ao longo do tempo construir no Bié, em pleno planalto central
de Angola, um pequeno empório, movimentando muitas mercadorias, muita mão-de-obra e, também, armas para defesa das suas caravanas. 
     A sua libata de Belmonte, feita de colmo e adobe, tinha o seu quê de imponente à sombra da bandeira azul e branca e adquiriu uma reconhecida importância estratégica. Foi em 1842, três anos depois de se iniciar como sertanejo, que Silva Porto fundou o seu estabelecimento. A ativíssima libata de Belmonte tornou-se famosa e viria a transformar-se numa cidade. É hoje Kuito, capital da província do Bié. Durante o regime colonial e até 1975, foi chamada de Silva Porto.
     Em 1852, quando estava na força dos 34 anos – e já com 15 anos em África, foi desafiado a empreender uma viagem. O governador de Benguela encarregou Silva Porto em 30 de Maio de 1852 fazer a viagem de Angola a Moçambique, que largou do Bié em 20 de Novembro. Em Fevereiro de 1853, chegou a Lialui que já tinha sido a capital do império do Barotze. Este potentado conglomerava politicamente mais de 25 tribos, estendendo-se por áreas que hoje correspondem a partes da Zâmbia, Zimbabué, Botswana, Namíbia, Angola e Moçambique. 
     A 13 de Julho de 1853 Silva Porto encontra Livingstone, no Barotze. 


     António da Silva Porto (1817-1890), o veterano do Bié, era o herdeiro e o representante anónimo da antiga presença comercial dos portugueses na África Austral. Tinha à sua frente David Livingstone (1813-1873), que então cumpria a primeira das três grandes expedições a África.
     Vindo da cidade do Cabo, Livingstone tinha atravessado o deserto do Kalahari e ultrapassado o lago Ngami, alcançando Quelimane e o Índico três anos depois.
     Em 1841, Joaquim Mariano e Francisco da Fonseca já negociavam em Nialele com o rei Riumbo, por ordem de Silva Porto.

Nota: Sobre o grande explorador HENRIQUE DE CARVALHO E A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO LUNDA, leiam “LESTE DE ANGOLA Nº. 12”

 Memórias de um passado saudoso

HENRIQUE AUGUSTO DIAS DE CARVALHO  – Major do Estado Maior de   Infantaria – Explorador (1843 – 1909)

EXPEDIÇÃO À REGIÃO DA LUNDA, no Leste de Angola, entre 1884 e 1888 
PESQUISAS: “EXPLORADORES PORTUGUESES E REIS AFRICANOS” de Frederico Delgado Rosa e Filipe Verde, e diversos na internet

Até Breve
O Amigo 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE" VII


Nota Introdutória
Longas tardes se passaram naquela piscina, local de encontro deste povo citadino Saurimense. Aprazível para residentes e para os “migrantes” ocasionais. Soldadesca esverdeada e azulada conviviam com os civis numa camaradagem ímpar. Assim se vivia o clima de guerra por terras africanas!... 
Marrador - Depois deste duo acrobata ter passado um bom fim-de-semana na capital da Lunda…Depois de tanto entretenimento faustoso e gabarola….Havia que recolher ao casulo, à caserna militar. A “Base” distava poucos quilómetros, mas à pata, ninguém se sujeitava! Vamos desengatilhar o amuo dos artistas!...
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VITO – A caminho da toca?
JOCA – Toca…toca!... Já tinhas saudades?
VITO – Tinha, e não tinha! Há que deixar passar o tempo de comissão. Não há outra alternativa!...
JOCA – Deixa, não te lamentes. Goza esta boleia a caminho do A.B.4.
VITO – Boleia? Olha, os mangalas estão à nossa espera no meio da picada?!
JOCA – Chiuuu! Estão à espera do sanzaleiro!... Aproveitemos a Mercedes.
VITO – Pois, é melhor esta carreta da FAP do que ir a pé como o Cibrão e o Zé Soares.
JOCA – Foram a pé?
VITO – Sim, perderam o transporte e tiveram que caminhar sete quilómetros pela noite fora. Apanharam um “cagaço” que juraram não andarem mais pelas salas de visita da cidade. Quem se mete em atalhos, mete-se em “taralhos”…lá diz o ditado.
JOCA – “Taralhos”!... sempre com a boa educação na ponta, na ponta da língua!...
VITO – Cuidado!...Cu…Cu…Cuidado, “aprochega-se” o arame farpado!...
JOCA – “Induka”!... Parece-me que estão todos à nossa espera!...
VITO – Bruxo!…Deve ser por causa dos sanzaleiros!... Algum soba se queixou com o assalto às suas concubinas.
Marrador – Já dentro do arame farpado, os “chamuanzas” vaidosos no seu estilo continuavam no palreio. Queixavam-se, mas no fundo, até havia condição aceitável para passar o tempo de forma menos enfadonha. Sempre havia o cinema no velho Hangar, confraternizações acerbadas, petiscos no Bar e nas Secções de trabalho, tocatas recatadas, praxes de maçaricos, Carnavais, Passagens de Anos, Aniversários, jogos, leituras descansadas, circuitos de “kingas”, caçadas, recordações familiares e amorosas e captação de fotos sobre a juventude galã e…das savanas guerreiras. Mas mais do que palavras, O VITO e o JOCA vão “botar” umas fotos que farão recordar as vivências de outrora. Resumo dos seus actos em terras de negridão. Recordações até ao último sopro!... Puxem pela “cachimónia”.
JOCA – Bem, regressámos ao A.B.4, regressámos aos nossos afazeres repetitivos…
VITO – Sim. Mas amanhã é diferente. Temos um aniversário dentro do nosso grupo. Haverá mais calor humano! Cuca à fartazana!...
JOCA – Aniversários, convívios, distracção!... Não fosse isso, morreríamos de tédio, saudade, tristeza e apanágio!
VITO – Acalma-te meu! O tempo é passageiro. Um dia, quando as galinhas tiverem dentes…irás gostar de recordar estas passagens pelo Continente Mistério!...
JOCA – Até lá,… tenho que pôr a escrita em dia. Devo dar notícias à família, e quero saber as novidades do “puto”, também.

VITO – Notícias, nostalgia do longínquo jardim à beira mar plantado! Queres é namoriscar a tua catraia… Piu, piu, piu…
JOCA – Sempre se anima ao ler uma cartita feminina!... Depois, os velhotes, família, e amigos que nos esperam para reactivarmos a vida caseira!... Enfim, muita coisa tem mudado enquanto permanecemos por estas bandas, no cú de judas!
VITO – Eh!... Tens razão! Mas olha! Olha que a nossa camarata é o nosso albergue! Muitas lágrimas choradas no silêncio!... O que nos vale são os laços de amizade. União de todos numa missão idêntica. Aguardar, gastando esta fatia temporal da nossa juventude.
JOCA – Aguardar pacientemente! 
VITO – Matar o tempo!...
JOCA – Não tanto assim, mas quase!... Temos jogos, diversão diversa. Não andamos na guerra tal e qual o exército. Há calmaria nesta zona!...
VITO – Sim, ainda nos damos ao “luxo” de podermos ler um livro, revista ou, jornal, de forma descontraída, sem ter que ouvir os tiros da guerra.
JOCA – Temos biblioteca, temos um ringue para desportos. Pratica-se quase de tudo e temos torneios pela Província.
VITO – Somos uns campeões!... Futebol de salão, andebol de sete, e que mais!...
JOCA – Encaramos esta estadia como um emprego se tratasse, como emigrantes, deslocados. Uns, trabalham na Esquadrilha de Abastecimento. Outros, no Hangar, na reparação de aviões, e outros, na Torre de Controlo, tipo vigia. “Tá-ri-táris”, “rum-runs”, Meteos, e que mais!...
VITO – Sim, no fundo até há actividades interessantes!... A mim, calhou-me a especialidade de falar para o ar, mas gostava mais de ter sido pilotaço!...
JOCA – Voa, voa…em sonhos! Todas as especialidades são bonitas. Até a de enfermaria para podermos dar umas injecções às garinas.

VITO – Uihhh…Uih…Mete o “xico”.
JOCA – Aqui? Isso é coisa que se mete no “quimbo”. E, com cuidado!...
VITO – Logo à noite, como é que é? Vais jogar ao bingo?
JOCA – Nãoooo!... Vou escrever, descansar, e ouvir uma musiquinha do aparelho do Quim.
VITO – Também me acho um pouco amolecido. Talvez siga o teu exemplo. Amanhã terei uma jogata de futebol de salão com o pessoal…
JOCA – Mas há outro torneio em disputa?! Ouvi falar o nosso Paulus que iria estar de serviço na arbitragem.
VITO – Sim, parece-me que temos exercício aplicado nas arenas da bola.
JOCA – Esta semana será agitada. Além do aniversário do Russo, teremos um belo filme no Hangar. “A filha de Ryan”, com os célebres actores Robert Mitchum, Trevor Howard e Sarah Miles. Enfim, um drama dirigido por David Lean.
VITO – Eh pá!... Não posso perder essa película. Compra já “two tickets four nous”. 
JOCA – Os bilhetes?!... compro mais logo. E pensando melhor, antes de irmos para as palhinhas fofas…vamos visitar o “Camone” à pildra. Ele fica contente, faz-se-lhe um pouco de companhia, anima-se e fumaremos o cachimbo da paz nesta quadra festiva do Natal que se aproxima.
VITO – Vou nessa. Afinal, também é “especial”, e o que fez não foi crime nenhum!...
JOCA – Para animar, até podíamos seguidamente ver as árvores de Natal, lá no Clube. Por certo, já devem estar preparadas a rigor.
VITO – Queres é ouvir um fadito e mamar uma Cuca!...
JOCA – Terminar o dia em beleza…
VITO – Mas…sem demoras. O galo canta cedo!....
JOCA – Ok. OK. Meu!
Nota Final: Estes sete temas narrados nas “Conversas na cidade” foram o apetrecho para fazerem lembrar os tempos passados no Leste de Angola. Quarenta e poucos anos já cá cantam!...Outros tantos, não diremos! Foi feita a triangulação do A.B.4, cidade, quedas do Chikapa – de forma aligeirada. Alguns ditotes da época, alguma prosa em Quiouco, malandrice camuflada!... Na altura, houve momentos de profunda tristeza porém, hoje, recordamos com saudade essa juventude atribulada. É bom reviver esse passado! Foi bom ter reencontrado muitos de vós. Haja saúde para continuarmos alegres e participantes por mais alguns anos. Até breve. 
O amigo e  companheiro:

terça-feira, 27 de agosto de 2013

SAURIMO - "CONVERSAS NA CIDADE" VI

Nota Introdutória
Altas horas já passadas, e a tasca do comerciante continuava a servir de hospedagem aos bem-falantes aeronáuticos. Estavam pousados nas cercanias do Cine Chikapa, naquela avenida onde se situava a pastelaria Bonina, a D.G.S., a J.A.E.A….Lá bem nos limites ocidentais da cidade Saurimense.   
Mas… o “Marrador” vai colocar os personagens em plena sessão… Tomem gosto pela conversa fiada dos “gabirus”!...
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Marrador – Depois do “marufo” entornado, da “tapioca” comida, e fumada a “liambada” na tasca do “fardex”, eis que os nossos leõezinhos ressonavam sem rosnar. Tão aéreos, tão apáticos, caíram de cú nas palhinhas…mesmo à beirinha da sanzala!... E, agradecendo ao dono amigo, a bela estadia…partiram para outras explorações, aproveitando a “pikada” sanzaleira já muito conhecida pela velha tropa dos “zingarelhos”. Escutem-lhes a canção, o lenga-lenga acostumado deste duo atribulado.
VITO – A “tapioca” estava picante!...
JOCA – E a “catchipembe” matava ratazanas!...
VITO – Hummm!...Este paladar na língua!... Seria da “liamba” mal curada?! Ou, da “mutopa” entupida?!...
JOCA – Entupido ando eu. Preciso “genisticar” o órgão. Senão, ainda rebento.
VITO – Com o teu “béu-béu” estás a dar-me ideias!...E se fôssemos até à Barragem do nosso amigalhaço Capelão?
JOCA - Pelo circuito da Sanzala de S. José?
VITO – Pela rota acostumada – cubata do Soba, para sabermos novidades da aldeia, pelo bananal, para a fotografia habitual, pelo rio, para apreciar as “mwanas phwos” e para mirar as provas olímpicas de mergulho, pelo centro das palhotas, para escolher os “cafécos” e ver a malhação no “pirão”.
JOCA – Já a tinhas estudado!... Estou a ver-te nos precipícios…Primeiro, na “cubata” do “muatan” para dissipar as calorias. Segundo, foto no bananal, para dizeres onde estiveste, armado em garanhão. Lavadeiras, com os “nés-nés” ao léu…, malhação do “pilão”?! Esta, não estou a situar?!
VITO – No pirão. És gago? Trocas os “L” pelos “R”? Será ainda o efeito do “malufo”? E as provas olímpicas, esqueceste de referi-las?!...
JOCA – Pois, enganei-me, queria exprimir a passagem de modelos com os “cafécos” de tanguinha!... Ou, sem ela!...
VITO – Com estas maldades todas, mentes turvas, acabamos por nos termos que confessar na Barragem!...
JOCA – Não. Lá não há confessionário. Só carrossel, baloiço eléctrico, jangada a vapor e formiguinhas de asa nos morros de sete andares. Estância balnear!...
VITO – Sabes trepar aos morros? Nalguns será preciso um escadote. Os bichinhos são pequenos, mas fazem prédios com vários andares. Formiga de asa, morros históricos…
Marrador – Os “ papa – léguas” caminhavam para o Norte. Passaram junto ao cemitério da cidade, tiraram a foto da praxe junto à grande bananeira – limite fronteiriço da sanzala e que dava para o desfiladeiro da Barragem. Antes, beijaram a mão ao grande “soba”, na cubata mor, fotografaram os “cafécos” e “cafécas”, e refrescaram os pés junto às lavadeiras do ngiji. Deitaram as suas graças às “tusulas”, e prosseguiram atalho até à dita Barragem construída pelas mãos do grande engenhocas religioso.
JOCA – Oihhh…Já avisto os “corvos” no balancé!...
VITO – É o Capelão, e gente da nossa “guerra” juntamente com os “cambutas”. Está tudo numa animação desgarrada. A Barragem sempre produz energia! Até oiço música de grafonola!...
JOCA – São as “kai” a balirem.
VITO – Cabras?! Aqui?
JOCA – E, são brancas.
VITO – Bem, estão com o Capelão…Estão isentas de pecados!...Vamos lá a ver se existem umas “bjecas” frescas!...
JOCA – Se há “corrente”…há energia. Se há energia, há geladeira. Se há geladeira, há bebida…
VITO – Se há, há…Se há, há!... Conversa de “chacha”!...
JOCA – Gaita!... Se não houver, tens a frescura dos morros das formigas. Cura-te. Vês o carrossel a girar? Afinal, temos o inventor “pardal” em África. Canal de água, Barragem, turbinas a funcionarem, produção de energia, luzes acesas, e divertimento para a pequenada. Sim senhor!...
VITO – Tira aqui umas fotos para enviarmos à “famelga”.
JOCA – Aqui, junto ao canal. Aqui, junto aos morros ou, com o Capelão como companhia, e também no “citulu” “apalhadado”.
VITO – Vê lá se “atacas” os sapatos depressa. Parece-me que estás a catar a “bitacaia”!...
Marrador – Depois de uma alongada com o “genérico” Capelão, soldadesca espacial e, canhikas” da cor de breu, eis que os veraneantes de fim-de-semana se colocam por discernir sobre a nova etapa a palmilhar. E, porque parar é morrer, havia que dar novo rumo ao dia…“
JOCA – Tal e qual o combinado, seguiremos até à piscina. N´est-ce pas?
VITO – Ohhh…Ouiiii!... Les petites filles sont belles !...
JOCA – Hummmm….Estás a imaginar já as meninas do Liceu a nadarem na piscina?
VITO – Circundamos o Liceu, torneamos a Capela, encetamos pela Avenida das Mangueiras, Campo da Bola, e penetramos, penetramos, pelos bambus.
JOCA – Penetraremos. Penetraremos na caminhada triunfal!... Mas, no túnel, no túnel dos bambus…consta que há lobos maus?!... UUUhhh…
VITO – Só papam meninas solitárias!...
JOCA – Esses lobos, conheço-os eu!... Alguns até andam fardados!...
VITO – Juízo na tola..Vê lá!…Acabaste de receber um alqueire de catequese com o Tenente Capelão e não te emendaste?
JOCA – OK. OK… Só natação!... Nadar, nadar. “Kha”!... Já não falo mais!...
VITO – Só natação e…só te faz bem. Não andas perro da tripa? Movimenta-te. E, o lobo mau, sou eu!
Marrador – Bambus, só bambus!... Terminada a avenida das Mangueiras, entrava-se na arcada das canas grossas. Todos os “franganitos voadores” tiravam a sua foto nestas paragens. Aqui, e junto à estátua do grande sertanejo, defronte à Capela. Deixemo-los caminhar para a fonte refrescante…
JOCA – Há dias passei por estas bandas com duas “canhicas” minhas conhecidas do teatro.
VITO – E…e….?
JOCA – E tínhamos ido tomar banho ao rio. Fazer um picnic à nossa maneira.
VITO – E… e….?
JOCA – E, ensaiámos a peça teatral!...
VITO – Até os crocodilos do rio cantaram em coro, certamente!...
JOCA – Mudando de tema, eis aqui à nossa frente a “turbe” dos asas caídas. Uma vintena a fazer das suas palhaçadas!.... A nossa tropa anima toda a cidade.
VITO – Olha, olha-me para aquele mergulhador! Melhor do que os “matumbitos” do riacho.   Olímpico em Munique.
Tal e qual o Mark Spitz,
JOCA – O das medalhas? Não tanto, mas também dá nas vistas!...
VITO – E, os dois do escorrega? Quem são?
JOCA - Sei lá!... Estão a alisar o zinco, tirar as farpas ao estrado. Não sabem nadar, e estão no disfarce!...
VITO – Outro mergulhador, classe!... Só competências para as meninas verem!...
JOCA – Peneirice azulada!... Não, aquele não é azul . Aquele é verde.
VITO – Arre…macho!...
JOCA – Arre!...
VITO – Vamos molhar o “trancoso”? Estão ali as nossas colegas à nossa espera!...
JOCA – Já topei. Estão a fazer que estudam, mas sempre a olharem para o “despe-despe”.
VITO – Calma. Respeita a Terezinha e a Suzete. São filhas da nossa “sargenteada”!... E, não só!
JOCA – Sim, a paisagem neste filme é superior à das quedas do Chikapa. Lá, só há barbudos!...
VITO – Muitos namoros se iniciam aqui!... Água morninha, tardes alongadas, caminhada pelo arvoredo,…tudo no compasso certo!...
JOCA – Joga a experiência já vivida, no fim de comissão!... Sempre os mesmos lugares já pisados tantas vezes!...
VITO – Como será num futuro longínquo?!... Teremos recordações destas paragens?!...
Marrador – Mais uma tarde que os nossos convivas passaram na piscina, juntamente com tantos outros companheiros de guerra, e pelas cidadãs da nobre cidade de Saurimo. Sempre os mesmos circuitos, sempre a mesma conversa, sempre os mesmos acepipes!.... Ao longo de vinte e tantos meses ou, mais!.... Envelhecia-se lentamente, amadurecia-se e,….Desfrutava-se ….Quando alguém o permitia!...
E, AGORA?!...
- Onde está o nosso Cabo
- Esse bravo do passado
- Da heróica aviação?!
- Que até com fato emprestado
- Parecia Homem honrado
- Mas no bolso, sem tostão!
Língua Quioca
Canhika  – jovem
Marufo – vinho feito da fermentação da seiva da palmeira
Malufo – vinho
Tapioca – papa de farinha de mandioca granulada e doce
Catchipembe – aguardente
Liamba – tabaco
Mutopa – cachimbo de água
Muatan – senhor
Pikada – caminho africano de 3ª. categoria
Tusula – rapariga
Kai – cabra do mato
Ngiji – rio
Citulu – chapéu
Mwana phwo – lavadeira
Kha – não
Bitacaia – parasita dos pés
Cubata – palhota
Cafécos – jovens
Kambuta – pequeno
Bjeca – cerveja
Matumbo – inculto
Anotações:
Teresinha – Jovem cidadã da cidade
Suzete – Filha de Sargento da FAP
Fotografias:
Recolha no “nosso” Blogue
Versos:
Fado do Especialista – Versos enviados por Álvaro de Jesus
 Até breve o amigo